Marcelo Finger, professor titular no Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), é o pesquisador responsável pelo projeto SPIRA-BM – Biomarcadores para condições respiratórias em dispositivos móveis por análise de áudio com inteligência artificial. A iniciativa investiga o uso da voz e da fala como ferramentas não invasivas para a detecção precoce de insuficiência respiratória e outras condições associadas, integrando pesquisa em inteligência artificial, linguística, saúde e ciência de dados. Confira a entrevista com essa liderença do projeto.
Quais são hoje os principais desafios do SPIRA-BM?
Os desafios do SPIRA-BM são vários, mas o primeiro e mais central é a obtenção de dados. O projeto é absolutamente dependente de dados, que são coletados em hospitais, e isso envolve um processo longo de autorizações. É necessário passar por comitês de ética, obter aprovação do estudo e, a cada coleta, garantir que o participante assine o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Só depois disso é possível coletar a voz do paciente. Além disso, a coleta exige o desenvolvimento de softwares específicos, pois os dados variam conforme a condição estudada. Após a coleta, os dados passam por validação, armazenamento seguro, pré-processamento e distribuição aos pesquisadores.
Onde são realizadas as coletas de dados atualmente?
As coletas já foram realizadas e continuam acontecendo em instituições como o Instituto do Coração (InCor), o Instituto Central do Hospital das Clínicas, a Beneficência Portuguesa e o Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo. Durante a pandemia, também houve coletas no Hospital Universitário da USP, na Santa Casa de Marília e no Hospital da Unimar, em Marília.
Como o projeto evoluiu desde o período da pandemia?
Durante a pandemia, o foco estava na detecção de insuficiência respiratória em pacientes com COVID-19. Com o avanço do projeto, o escopo foi ampliado para incluir outras causas de insuficiência respiratória, como asma, insuficiência cardíaca, DPOC e infecções pulmonares. A coleta de dados tornou-se mais lenta, pois essas condições são menos frequentes e muitas vezes sazonais.
Por que o uso do celular é central no projeto?
O celular permite uma detecção precoce e acessível da insuficiência respiratória. O sistema não realiza diagnóstico médico, mas fornece uma indicação que auxilia na triagem e no encaminhamento do paciente. Trata-se de uma ferramenta ubíqua, capaz de operar em diferentes contextos e locais, inclusive em regiões remotas.
O projeto pode ser expandido para outros idiomas e contextos?
Atualmente, o projeto trabalha apenas com dados em português. No entanto, há interesse em investigar se os modelos desenvolvidos podem ser aplicados a outras línguas e contextos culturais, incluindo regiões da África, o que exigirá novos tipos de coleta e validação científica.
