Quem faz o SPIRA destaca a trajetória da professora Flaviane Romani Fernandes Svartman, docente associada da Universidade de São Paulo, com formação em Linguística pela Unicamp, onde também realizou doutorado e pós-doutorado, além de estágio na Universidade de Lisboa e livre-docência pela USP. Pesquisadora com atuação em fonologia, fonética e prosódia do português, é bolsista de produtividade do CNPq e integra o projeto a partir de sua experiência na interface entre linguagem e tecnologia.
No SPIRA, Flaviane contribui especialmente com a análise das pausas e dos padrões gramaticais da fala como possíveis biomarcadores de condições respiratórias. Na entrevista, ela comenta sua entrada no projeto durante a pandemia, os principais achados relacionados à COVID-19 e à asma e os desafios linguísticos envolvidos na construção de ferramentas de apoio ao diagnóstico.
Professora, como se deu a sua entrada no projeto?
Foi muito interessante a minha entrada no SPIRA, porque ocorreu em plena pandemia da COVID-19. Naquele contexto, eu já atuava como pesquisadora colaboradora do C4AI (Center for Artificial Intelligence), trabalhando com a área de prosódia voltada para ferramentas computacionais, como transcritores de fala e sintetizadores. O Marcelo Finger também já atuava no centro, na área de escrita, e eu o conhecia há bastante tempo. Durante a pandemia, ele percebeu que havia algo a ser analisado na voz e na fala dos pacientes, sugerindo um mapeamento desses aspectos em termos computacionais. Como sou linguista, ele me chamou para participar do estudo. Eu aceitei a proposta, mas já destaquei que precisaríamos de um time maior. Sou da área da fonologia, especializada em som, porém também precisávamos, por exemplo, de um conhecimento mais técnico nas áreas de fonética acústica e fonoaudiologia. Ele concordou com a ideia e, aos poucos, montamos a equipe do então projeto regular, antes de termos o projeto temático. Nessa fase, contribuí especialmente para formar o time do chamado small data.
O que mais chamou a sua atenção nas particularidades do SPIRA?
Vou te dizer que o SPIRA entrou como um presente na minha vida, pois com ele passei a ter uma possibilidade concreta de contribuir efetivamente, como linguista, com a sociedade, sobretudo em um momento tão imprescindível e caótico da humanidade, que foi a pandemia da COVID-19. A possibilidade de desafogar o contato presencial entre pacientes e equipes de saúde com uma ferramenta como essa apareceu como uma grande contribuição possível da área da Linguística.
Assim que o SPIRA se tornou um projeto temático, quais foram as suas primeiras ações como integrante do grupo?
O início do projeto temático envolveu pensar e elaborar um protocolo de análise para essa pesquisa ampliada, para além do que já tínhamos identificado em torno dos marcadores da COVID-19. Começamos a olhar, por exemplo, para aspectos como a pausa na fala como um correlato de outras condições respiratórias, como a asma. Basicamente, passei a refletir com meus colegas sobre como definir esses parâmetros de forma comparativa.
Até o momento, a pesquisa já permite identificar diferenças importantes entre a fala e diferentes condições respiratórias?
O que observamos em relação às pausas é que existe uma linha de continuidade. Por exemplo, na COVID temos resultados mais exacerbados, com pausas maiores e mais marcadas em comparação ao grupo controle. Além disso, os lugares em que as pausas se inserem na fala de pacientes com COVID não coincidem com a gramática do português brasileiro, como ocorre no grupo controle. No caso da asma, esses aspectos ficam em uma posição intermediária. Não há grandes diferenças quanto ao local de inserção das pausas entre o grupo controle e os pacientes com asma. Já a duração das pausas em pessoas com asma é um pouco maior do que no grupo controle, mas está longe de ser tão exacerbada quanto nos pacientes com COVID.
Como ocorre atualmente a sua rotina como pesquisadora do SPIRA?
O projeto se organiza em dois grandes grupos: o big data, formado pelo pessoal da computação, e o small data, do qual faço parte. Além das reuniões quinzenais com toda a equipe do SPIRA, temos encontros específicos do small data. A partir das análises que discutimos, já planejamos trabalhos para apresentação em congressos e publicação em revistas científicas. Com o tempo, esperamos que os dados de voz e fala sejam incorporados pelo pessoal do big data, com o objetivo de desenvolver, quem sabe, um software de auxílio ao diagnóstico dessas condições respiratórias. Sempre ressaltamos que o diagnóstico é feito pela equipe médica; a inteligência artificial entra como ferramenta de apoio nesse processo.
Pensando nas variedades dialetais do português brasileiro, as diferenças de sotaque poderiam impactar os resultados da análise da voz e da fala entre pacientes e grupo controle?
Partindo da ideia de que existe uma macrogramática do português brasileiro, entendemos que há um padrão de gramática prosódica que independe das variedades dialetais. Evidentemente, existem diferenças em um nível mais fonético de realização. No entanto, há padrões mais específicos que nos permitem dizer que se trata de português brasileiro, e não de outras variedades da língua, como as de Portugal ou de regiões da África. A própria concepção de uma ferramenta para o nosso projeto prevê que ela dê conta, antes de tudo, do português brasileiro, mesmo considerando as diferenças internas dessa língua.
