Pesquisa publicada na revista Healthcare mostra que certos parâmetros acústicos da voz permanecem diferentes mesmo meses após a infecção

Um trabalho publicado em 2025 na revista científica Healthcare, intitulado “Acoustic Characteristics of Voice and Speech in Post-COVID-19”, investigou possíveis alterações na voz de pessoas que tiveram COVID-19. A pesquisa foi conduzida por cientistas vinculados ao SPIRA-BM (Biomarkers for Respiratory Conditions by Audio Analysis via Artificial Intelligence), projeto temático apoiado pela FAPESP, e indica que algumas características acústicas da voz podem permanecer alteradas meses após a infecção, sugerindo o potencial uso da voz como biomarcador em ferramentas de triagem baseadas em inteligência artificial.
O objetivo do estudo foi comparar características acústicas da voz e da fala entre pessoas que já haviam sido infectadas pelo coronavírus e indivíduos que nunca tiveram a doença. A hipótese dos pesquisadores era que determinados parâmetros acústicos poderiam diferenciar os dois grupos, mesmo após a fase aguda da infecção.
Ao todo, 134 voluntários participaram da pesquisa. Desse total, 64 pessoas tinham histórico de COVID-19 e 70 compunham o grupo controle, formado por indivíduos que não haviam sido infectados. Os participantes foram selecionados por conveniência e tinham perfis demográficos semelhantes, o que permitiu a comparação entre os grupos.
Entre os participantes que tiveram COVID-19, o tempo médio desde a infecção era de aproximadamente 8,7 meses. Esse intervalo permitiu investigar possíveis efeitos de longo prazo associados à condição conhecida como pós-COVID, que pode incluir sintomas persistentes relacionados ao sistema respiratório e à produção vocal.
A coleta de dados foi realizada entre abril e julho de 2022 em diferentes cidades do estado de São Paulo, incluindo Marília, São Paulo, Paulínia, Potim e Aparecida. As gravações foram feitas com telefones celulares, utilizando o software SPIRA, desenvolvido no próprio projeto de pesquisa.
Durante o experimento, os participantes realizaram duas tarefas vocais simples. Na primeira, deveriam sustentar a vogal “a” pelo maior tempo possível em intensidade confortável. Na segunda, realizaram a leitura de uma frase padronizada, apresentada na tela do celular. As gravações foram posteriormente analisadas com o software Praat, amplamente utilizado em estudos de fonética acústica.
Os pesquisadores analisaram dois conjuntos de parâmetros. O primeiro diz respeito às características da fala, como duração da frase e número de pausas durante a leitura. O segundo envolve características acústicas da voz, incluindo medidas como frequência fundamental (f0), jitter, shimmer e a relação harmônico-ruído (HNR), indicadores que refletem a estabilidade e a qualidade da vibração das pregas vocais.
Os resultados mostraram que não houve diferenças significativas nas características de fala entre os dois grupos. Parâmetros como duração das frases ou número de pausas apresentaram valores semelhantes tanto para participantes com histórico de COVID-19 quanto para aqueles do grupo controle.
Por outro lado, quando os pesquisadores analisaram as características da voz, observaram diferenças estatisticamente significativas em três parâmetros acústicos: jitter, shimmer e HNR. Esses indicadores estão associados à estabilidade da vibração das pregas vocais e à qualidade do sinal sonoro produzido durante a fonação.
Segundo os autores, essas diferenças podem refletir alterações persistentes nos sistemas respiratório e fonatório após a infecção. Como a produção da voz depende diretamente do controle respiratório e da vibração das pregas vocais, mudanças nesses sistemas podem deixar marcas detectáveis na análise acústica da voz.
O artigo Acoustic Characteristics of Voice and Speech in Post-COVID-19 foi escrito por Larissa Cristina Berti, Viviam Batista Morais, José Henrique de Moura Quirino, Beatriz Raposo de Medeiros, Marcelo Gauy, Tatiane Cristina de Almeida, Luana Cristina Santos da Silva, Julia Vasquez Valenci Rios, Leisi Silva Sossolete, Carolina Fernanda Pentean Martins, Flaviane R. Fernandes-Svartman, Marcelo Queiroz, Murilo Gazzola e Marcelo Finger.
