Teses de doutorado desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde e Comunicação Humana da Unesp analisam parâmetros acústicos da voz e da fala na insuficiência respiratória por meio de diferentes focos e abordagens
Pesquisas em desenvolvimento no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde e Comunicação Humana da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília, têm utilizado a base de dados do SPIRA-BM para investigar novas formas de compreender a insuficiência respiratória a partir da voz e da fala. A nossa reportagem conversou com as doutorandas Tatiane Cristina de Almeida e Leisi Silva Sossolote, além da professora orientadora Larissa Cristina Berti, pesquisadora do projeto, sobre os caminhos, desafios e contribuições desses estudos.
A possibilidade de utilizar a voz como ferramenta clínica para avaliar a insuficiência respiratória tem orientado investigações que articulam saúde, tecnologia e análise acústica. Em comum, os estudos partem do entendimento de que as alterações fisiológicas provocadas por diferentes condições respiratórias impactam diretamente a produção da voz e da fala.
No caso da pesquisa desenvolvida por Tatiane, o foco está em investigar quais parâmetros acústicos de voz e fala poderiam diferenciar áudios de pacientes internados em UTI com diagnóstico de insuficiência respiratória de diversas origens, como asma, pneumonia, entre outras patologias, comparando com áudios de pacientes com insuficiência respiratória devido à COVID-19 e sujeitos controles.
Além da distinção entre os grupos, a pesquisa também busca examinar quais parâmetros acústicos podem atuar como preditores para cada condição clínica. O estudo se insere mais precisamente na segunda fase do projeto (SPIRA-BM), que ampliou o escopo para investigar insuficiência respiratória de diferentes origens, para além da COVID-19.
Esse recorte dialoga com evidências anteriores. Segundo a pesquisadora, outros estudos já demonstraram que modelos de inteligência artificial treinados com dados de pacientes com COVID-19 foram capazes de identificar insuficiência respiratória com alta precisão, superior a 96%. No entanto, ao serem aplicados em casos de outras origens, a acurácia caiu significativamente, chegando a cerca de 38%, o que reforça a necessidade de novas pesquisas com maior diversidade de dados.
A trajetória de Tatiane também se conecta diretamente com a construção da base do projeto. Fisioterapeuta desde 2007 e atuando há anos no Hospital Beneficente UNIMAR, ela iniciou sua participação no SPIRA como coletadora profissional de dados em ambiente hospitalar, contribuindo para a formação do banco. Posteriormente, já como doutoranda, passou a desenvolver sua própria investigação usando dados do projeto.
Recentemente ela apresentou os resultados preliminares para uma banca de qualificação. “Eu qualifiquei no final de fevereiro, fui aprovada e agora estou na fase de correção e inserção de sugestões feitas pela banca. Com o trabalho feito até aqui, consegui concluir, a partir dos resultados, que a insuficiência respiratória, independente da origem, vai alterar a dinâmica da produção da voz e da fala”, explica Tatiane.
Entre os achados já observados, a pesquisadora destaca que parâmetros como número de pausas e duração do enunciado apresentaram diferenças estatisticamente significativas quando comparados os grupos clínicos, indicando a sensibilidade dessas medidas às alterações respiratórias.
Já a pesquisa de Leisi tem como foco a investigação de parâmetros acústicos da voz como potenciais biomarcadores clínicos em pacientes com insuficiência respiratória aguda (IRA). Segundo ela, a proposta parte de uma lacuna importante na prática assistencial: a necessidade de ferramentas adicionais, não invasivas e de fácil aplicação, que auxiliem na avaliação da gravidade e na previsão de desfechos clínicos nesses pacientes.
O estudo responde a uma lacuna na prática assistencial. Com formação em enfermagem e atuação como intensivista, ela destaca que o diagnóstico da insuficiência respiratória aguda ainda depende, majoritariamente, de exames laboratoriais e de imagem, que demandam tempo, o que impacta diretamente a condução clínica em um contexto de alta mortalidade associada à condição.
“A proposta surge como uma alternativa rápida e barata, para atendimento efetivo, em curto período entre chegada do paciente, diagnóstico e conduta definitiva, visto que a mortalidade correlata a IRA é alta.”, destaca Leisi.
A pesquisa também busca verificar se características mensuráveis da voz, como frequência, intensidade e estabilidade vocal, podem refletir alterações fisiológicas associadas à insuficiência respiratória aguda e contribuir para a estratificação de risco. Ainda conforme a doutoranda, a hipótese central é que existam diferenças significativas nos padrões vocais entre pacientes que evoluem para alta e aqueles que evoluem para óbito, e que essas alterações possam ser utilizadas como indicadores objetivos da gravidade clínica.
Um ponto central das duas investigações é o uso da base de dados do SPIRA-BM, considerada um diferencial metodológico importante. Estruturado em fases, o projeto reuniu inicialmente áudios de pacientes com COVID-19 coletados por meio de celulares e, posteriormente, ampliou o banco para incluir pacientes com insuficiência respiratória de diferentes origens, recrutados em variados centros de saúde.
A padronização rigorosa da metodologia de coleta entre os centros e a obtenção de dados em condições reais, fora de ambientes acusticamente controlados, ampliam a confiabilidade e a aplicabilidade dos resultados. Esse conjunto permite não apenas análises comparativas consistentes, mas também o desenvolvimento de pesquisas com maior volume amostral.
Para Leisi, esse aspecto é central para a viabilidade dos estudos. “A disponibilização de centenas de registros vocais em banco de dados permite não apenas a realização desta pesquisa, mas também abre caminho para diversas investigações no campo da voz e da fisiologia respiratória”, afirma.
Em ambos os casos, as pesquisas apontam para possibilidades de aplicação que aproximam a investigação científica da realidade assistencial, especialmente com o uso de tecnologias acessíveis, como smartphones, para coleta e análise vocal em larga escala.
As pesquisas são orientadas por Larissa Cristina Berti, que atualmente é professora associada vinculada ao Departamento de Fonoaudiologia da Unesp, campus de Marília, e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Fonoaudiologia da instituição. A pesquisadora destaca que os estudos desenvolvidos no âmbito do SPIRA-BM compartilham não apenas objetos de análise, mas também uma transformação metodológica na forma de produzir conhecimento na área.
“Cada tese responde a uma pergunta relevante e todas têm um denominador comum, que é um marco que o SPIRA tem feito: uma mudança de paradigma metodológico, sendo isso fundamental nessas pesquisas. Quem trabalha na área da acústica, com uma formação mais tradicional, gravava os áudios dos pacientes numa cabine, sem até então outras possibilidades de realizar uma análise desse tipo. Com o SPIRA, temos outros ambientes, agora não controlados, com ruídos e isso não acaba sendo uma limitação, mas uma inovação a partir dessas pesquisas”, destaca Larissa.
A professora também ressalta resultados anteriores que reforçam esse caminho, como a tese de Henrique Moura, defendida em 2025, que identificou parâmetros da fala como preditores da insuficiência respiratória. Nesse cenário, as pesquisas em andamento consolidam o papel do SPIRA-BM na articulação entre inovação metodológica e aplicações na área da saúde.
