A série “Quem faz o SPIRA?” apresenta os pesquisadores que integram o projeto e contribuem para o desenvolvimento de soluções baseadas em análise de áudio aplicada a condições respiratórias. Nesta edição, a entrevistada é a professora Larissa Cristina Berti, cuja trajetória acadêmica e atuação profissional articulam as áreas de fonoaudiologia e linguística.
Professora da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Larissa Berti possui formação sólida na área, com graduação em Fonoaudiologia, mestrado, doutorado e pós-doutorado internacional, além de livre-docência em fonologia e clínica fonoaudiológica. Sua experiência inclui temas como aquisição da linguagem oral, fonética e fonologia, análise acústica e análise ultrassonográfica, áreas diretamente relacionadas às investigações desenvolvidas no projeto.
Sua entrada no SPIRA-BM ocorreu a partir de um convite da equipe, motivado pela necessidade de integrar ao projeto uma pesquisadora com formação híbrida e experiência na área da saúde e na análise da fala. A decisão de participar também foi influenciada pelo contexto da pandemia de COVID-19 e pela possibilidade de contribuir em uma iniciativa multidisciplinar, reunindo diferentes áreas do conhecimento.
Como você entrou no projeto?
A minha entrada nessa pesquisa é decorrente do convite da professora Flaviane, que gentilmente me chamou para participar. De início eu neguei, mas ela insistiu destacando a importância de ter um fonoaudiólogo com formação em linguística no projeto. Eu estudo, há muito tempo, ferramentas para análise da fala. Então, esse convite, aliás, se justifica pela minha formação hibrida em linguística e fonoaudiologia. Além disso, eu já tinha uma atuação e uma atuação na área da saúde.
Qual a sua maior motivação para integrar a equipe?
Penso que foi pelo contexto da pandemia da COVID-19. Em 2020 estávamos naquele período horroroso e eu entendi que poderia contribuir com a minha formação e experiência. Também destacado a oportunidade de aprender e trabalhar numa equipe multiprofissional, incluindo áreas como computação. Isso é muito legal e, ao mesmo tempo, desafiador.
Como você atuou no treinamento dos coletadores de voz da pesquisa?
Acho que são dois aspectos importantes. Primeiramente, foi uma ajuda, uma contribuição não só minha, mas do grupo inteiro em relação ao software de coleta. Nesse sentido, pensamos nas etapas, nas perguntas, nas tarefas, discutindo o que era ou não viável. Logo depois realizamos um treinamento bem rígido do ponto de vista metodológico para garantir basicamente as mesmas condições de coleta de dados. Assim, por exemplo, treinamos os coletadores a orientar como fazer o paciente a realizar uma vogal sustentada no momento da gravação, assim como qual seria a melhor distância para segurar o celular durante a coleta.
De que maneira as tarefas das coletas se justificam?
Temos um protocolo de coleta que envolve a produção de uma vogal sustentada e de uma parlenda, sendo que cada uma dessas tarefas possui um objetivo específico. Então, por exemplo, quando vamos analisar os parâmetros de voz precisamos da vogal sustentada, pois quando temos apenas a vogal, não temos elementos de fala juntos, conseguindo extrair parâmetros mais relacionados à fonte laranja, a fonte de produção de voz. Aliás, isso é uma tarefa muito consensual na área. Já a leitura de uma frase é necessária porque envolve outras dimensões, habilidades linguísticas, tendo aí um ponto de vista da gramática. E no caso da frase utilizada na coleta, vale destacar, que ela foi pensada considerando os locais da gramática que a pessoa pode fazer uma pausa. Então, qual é o padrão intuacional de leitura daquela frase? E o que variar em relação o que é esperado pela língua? A gente pode olhar se é uma característica daquela condição clínica ou não e o quanto se distância. Logo, por isso que é uma outra tarefa em que podemos extrair parâmetros não somente da voz, mas também da fala. E a tarefa da parlenda é importante porque pedimos para a pessoa falar alguma coisa de memória, ou seja, dessa vez sem nenhum apoio escrito. Então, num geral, são tarefas que olham para aspectos completamente distintos de voz e fala.
O que são os chamados biomarcadores de áudios no projeto?
Essa pergunta não tem uma resposta única e fácil, mas vamos começar do ponto de vista conceitual. Atualmente, existe um grupo internacional que se reúne sistematicamente, um grande projeto que tem se dedicado a estudar e definir o que se entende por biomarcador. Digo isso para ressaltar que teoricamente a definição disso é super recente. No contexto do SPIRA, entendemos o biomarcador como parâmetros extraídos do sinal de áudio, sendo relacionados tanto a voz quanto a fala. Em síntese, são características acústicas que podem predizer uma condição. Além das características de fala, como pausa e entoação, temos também de voz: frequência fundamental, características de jitter e shimmer, relação ruído-harmônico. Então, tem vários parâmetros de voz e fala que vão servir para identificar uma condição (respiratória no contexto do projeto).
Como você enxerga a sua formação híbrida (linguística e fonoaudiologia) nessa pesquisa?
Eu penso que a dimensão da fono, que é uma área mais voltada para a saúde, se tornou fundamental no projeto, uma vez que temos experiência grande em lidar com pacientes. Então o ambiente de laboratório não é estranho pra mim, por exemplo. Por outro lado, penso que a formação da linguística vem com uma preocupação muito vinculada a questões teóricas, incluindo pensar o que esses parâmetros podem dizer em relação ao processo de produção de fala.
