Pesquisas do SPIRA-BM investigam, dentre outras questões, por que o cigarro muda a voz
Quem já conversou por telefone com uma fumante de longa data provavelmente reconhece o som: uma voz mais grave, mais rouca, às vezes com um leve esforço para sustentar as palavras. O chamado “voz de fumante” é senso comum — mas por trás dele existe um fenômeno fisiológico bem descrito, que hoje ganha um novo capítulo dentro do projeto temático SPIRA-BM, dedicado a transformar sons da voz e da fala em biomarcadores de condições respiratórias.
Duas pesquisadoras do projeto, de áreas completamente diferentes, ajudam a explicar esse fenômeno sob duas lentes complementares: a médica Jaqueline Scholz, cardiologista do InCor-HCFMUSP e coordenadora do ambulatório de cessação do tabagismo da instituição, que enxerga a alteração vocal na prática clínica todos os dias; e a fonoaudióloga e linguista Larissa Berti, da UNESP, responsável por parte do desenho metodológico do SPIRA-BM, que explica os parâmetros técnicos usados para medir cientificamente essa mudança.
Por que a voz muda — e por que isso aparece mais nas mulheres
Segundo Jaqueline, a explicação começa na própria fisiologia da voz. O cigarro inflama as pregas vocais, o que altera a tonalidade da fala. Como a voz feminina naturalmente ocupa uma faixa mais aguda — enquanto a masculina já é mais grave —, qualquer engrossamento provocado pela inflamação fica muito mais evidente nas mulheres. “Quando você inflama as cordas vocais, você muda a tonalidade. Por isso que muda a voz, o paciente fala: ‘Doutora, quando eu atendo o telefone, o pessoal acha que eu sou um homem falando'”, relata a médica.
Um dos quadros clínicos mais associados a esse efeito é o edema de Reinke, condição em que as pregas vocais incham em resposta à irritação crônica causada pela fumaça, tornando a voz mais grave e rouca — de novo, um efeito especialmente perceptível entre as mulheres fumantes. Mas a mudança não se resume à tonalidade. Jaqueline observa também maior esforço para falar e alterações na fluência: “não é só a tonalidade da voz, é o espaço que a pessoa faz para que aquela corda vocal vibre, ela cansa de falar. É impressionante.”
Essas alterações costumam ficar clinicamente evidentes em fumantes com décadas de exposição ao tabaco — mas é exatamente aí que entra a proposta do SPIRA-BM: investigar se já existem sinais mais precoces, em fumantes mais jovens ou com menor tempo de exposição, que passam despercebidos numa avaliação auditiva convencional, mas que poderiam ser captados por métodos de análise mais sensíveis.
Medindo o que o ouvido não pega: os parâmetros por trás do biomarcador
É aqui que entra o trabalho de Larissa Berti. Enquanto a percepção clínica de Jaqueline vem da experiência com pacientes, o SPIRA-BM precisa transformar essa percepção em números. Segundo a pesquisadora, o conceito de “biomarcador” no projeto é definido como parâmetros extraídos do sinal de áudio, relacionados tanto à voz quanto à fala. Entre eles estão a frequência fundamental (que corresponde à altura percebida da voz), além de características como jitter e shimmer — pequenas variações de frequência e amplitude entre um ciclo vocal e outro — e a relação ruído-harmônico, que mede o quanto de “ruído” existe misturado ao som produzido pelas pregas vocais.
Não por acaso, o protocolo de coleta de dados do SPIRA-BM inclui a emissão sustentada de uma vogal como uma das tarefas centrais. Larissa explica que essa tarefa é “muito consensual na área” justamente porque, ao isolar a vogal sem os outros elementos da fala, é possível extrair parâmetros ligados especificamente à fonte de produção da voz — o que a torna ideal para captar justamente o tipo de alteração que Jaqueline descreve na prática clínica.
Duas frentes, uma mesma pergunta
O interessante desse cruzamento é que ele mostra como o SPIRA-BM aproxima duas linguagens diferentes em torno do mesmo problema. Jaqueline chega à pergunta pela via clínica: será que existe um marcador objetivo que ajude a confirmar o tabagismo e acompanhar a evolução de pacientes em tratamento, complementando exames como a monoximetria, que exige presença física? Larissa chega pela via da fonética e da fonoaudiologia: quais parâmetros acústicos, extraídos de forma padronizada, conseguem captar de forma confiável essas mudanças na voz?
Para Jaqueline, o potencial prático é claro, especialmente em um cenário de expansão da telemedicina: uma ferramenta de análise de voz poderia ajudar a acompanhar remotamente pacientes em processo de cessação, algo especialmente relevante para quem vive longe de grandes centros. Já entre os fumantes que usam a voz como instrumento de trabalho, como cantores, a médica observa que o impacto do cigarro tende a aparecer ainda mais cedo — ela relata já ter atendido pacientes cantores que buscam tratamento aos 30 anos de idade, justamente por perceberem primeiro os efeitos do tabagismo nas próprias cordas vocais.
O tamanho do problema
Para dimensionar por que esse tipo de ferramenta importa, vale olhar os números mais recentes sobre tabagismo no Brasil. Depois de quase duas décadas de queda contínua — a prevalência de fumantes adultos nas capitais brasileiras caiu de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023 —, dados do Ministério da Saúde apontam que essa tendência se inverteu: o índice voltou a subir, para 11,6% em 2024, um salto de cerca de 25% em apenas um ano. Entre os fatores associados a essa reversão está a expansão de novos produtos de nicotina, como os dispositivos eletrônicos.
A prevalência também segue desigual entre os sexos: segundo o Vigitel, o tabagismo é mais comum entre homens (11,8%) do que entre mulheres (7,3%) no Brasil. Em nível global, a Organização Mundial da Saúde estima que o tabaco mate cerca de 8 milhões de pessoas por ano — incluindo 1,3 milhão de não fumantes expostos ao fumo passivo — e que, em 2020, o uso de tabaco entre homens adultos (36,7%) fosse muito superior ao das mulheres (7,8%) no mundo todo.
É nesse cenário — de reversão de uma tendência histórica de queda e de forte disparidade entre os sexos — que ferramentas de triagem acessíveis, como uma análise de voz feita a partir de um simples áudio gravado no celular, ganham relevância. Se a pesquisa do SPIRA-BM avançar como esperado, a “voz de fumante” pode deixar de ser apenas um estereótipo do senso comum para se tornar um dado clínico objetivo — capaz de apoiar diagnóstico, acompanhamento de tratamento e, principalmente, alcançar quem hoje tem menos acesso a exames presenciais.
