Trabalho apresentado por integrante do projeto investigou associações entre sintomas respiratórios e parâmetros acústicos da voz em 142 pessoas com asma moderada a grave
Pesquisa do SPIRA-BM sobre voz e asma recebe prêmio de Inovação e Tecnologia no XXII SIFR
Trabalho apresentado oralmente por Victor dos Santos Silva investigou associações entre sintomas respiratórios e parâmetros acústicos da voz em 142 pessoas com asma moderada a grave
Uma pesquisa do projeto SPIRA-BM sobre a relação entre características da voz e o controle clínico da asma recebeu o prêmio na categoria Inovação e Tecnologia durante o XXII Simpósio Internacional de Fisioterapia Respiratória, Cardiovascular e em Terapia Intensiva (SIFR). Realizado de 12 a 15 de agosto de 2026, no Centro de Convenções de Natal (RN), o evento contou com a apresentação oral do trabalho “Associação entre os sintomas respiratórios e parâmetros acústicos da voz em indivíduos com asma moderada a grave”, realizada por Victor dos Santos Silva.
Promovido pela Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva (ASSOBRAFIR), o XXII SIFR marcou os 40 anos da entidade e reuniu mais de mil trabalhos científicos, além de especialistas nacionais e internacionais. A pesquisa apresentada no simpósio investiga o potencial de características acústicas da voz como biomarcadores relacionados ao controle clínico da asma.
O estudo avaliou 142 indivíduos com asma moderada a grave, sendo 71 com asma controlada e 71 com asma não controlada. Os participantes tinham diagnóstico de asma, estavam em acompanhamento ambulatorial há pelo menos seis meses e utilizavam terapia medicamentosa otimizada, sem exacerbações nos 30 dias anteriores à avaliação. As gravações de voz foram realizadas durante visitas ambulatoriais por meio do aplicativo SPIRA®, a partir da vocalização de uma vogal sustentada.
As amostras foram analisadas posteriormente no software PRAAT. Entre os parâmetros acústicos avaliados estavam a frequência fundamental (f₀), o desvio padrão da f₀, jitter, shimmer, relação sinal-ruído (SNR) e número de quebras da voz. Os pesquisadores compararam esses parâmetros com as respostas ao Asthma Control Questionnaire (ACQ-5), utilizado para classificar o controle da asma e analisar sua associação com os sintomas respiratórios.
No grupo com asma controlada, não foram observadas associações significativas entre os sintomas respiratórios e os parâmetros acústicos da voz. Já entre os participantes com asma não controlada, foram identificadas associações entre a mediana da frequência fundamental e sintomas relacionados a acordar durante a noite por causa da asma, à limitação para realizar atividades e à falta de ar. O sintoma de despertar noturno também apresentou associação com o jitter, enquanto a falta de ar apresentou associação com o número de quebras da voz.
Os resultados do estudo reforçam, segundo os autores, o potencial da voz como biomarcador para avaliar e monitorar o controle clínico da asma. Para Victor, o uso do aplicativo SPIRA® também pode possibilitar o acompanhamento das mudanças relacionadas ao controle da doença no cotidiano dos participantes.
“Acredito que o uso do app SPIRA nos entrega a possibilidade de acompanhar, de maneira contínua, as mudanças respiratórias e identificar alterações no controle da asma no ambiente real do indivíduo, no do dia a dia dele, antes ou durante a piora clinica.”
O professor Celso Ricardo Fernandes Carvalho, um dos autores do trabalho e responsável pela linha de pesquisa Asma Grave, destaca que a possibilidade de acompanhamento contínuo também pode abrir novas perspectivas para o monitoramento da doença. Segundo ele, o uso do aplicativo poderá permitir o acompanhamento das mudanças respiratórias no ambiente real do paciente e, futuramente, contribuir para a identificação antecipada de crises.
“O uso do app SPIRA deverá trazer a possibilidade de acompanhar as mudanças respiratórias e identificar alterações no controle da asma de maneira contínua e no ambiente real do paciente. Portanto, isso nos permitiria predizer exacerbações (crises)”
Os resultados apresentados, porém, não permitem estabelecer uma relação de causalidade entre os parâmetros vocais e os sintomas respiratórios. Celso ressalta que os pesquisadores ainda não têm uma resposta definitiva para explicar por que alterações em parâmetros como frequência fundamental, jitter e número de quebras da voz estão associadas aos sintomas observados no grupo com asma não controlada.
“Ainda não temos esta resposta. Entretanto, acreditamos que isso aconteça seja por questões da doença ou do uso crônico da medicação. Estamos nos preparando estudos futuros para responder a essa pergunta”
O acompanhamento longitudinal é apontado pelos pesquisadores como um dos caminhos para aprofundar essa investigação. Ao acompanhar os participantes ao longo do tempo, será possível observar como os parâmetros vocais se modificam e como essas alterações se relacionam com sintomas e exacerbações.
“Esse acompanhamento nos permitirá compreender como esses parâmetros se modificam ao longo do tempo e de que maneira estão associados com os sintomas e exacerbações (crises)”
Para Celso, o reconhecimento recebido no SIFR reforça o caráter inovador da pesquisa e a direção dos estudos desenvolvidos pelo grupo. A possibilidade de registrar a voz por meio de dispositivos digitais, como celulares e gravadores, também permite investigá-la como um biomarcador digital de maneira não invasiva e com acesso facilitado.
“A conquista do prêmio mostra que estamos na direção certa dos nossos estudos. O prêmio é um reconhecimento de que nosso trabalho tem caráter inovador para o monitoramento da asma. Podemos, por exemplo, caracterizar a voz como um biomarcador digital, uma vez que ela pode ser gravada por dispositivos digitais, não invasivos e de fácil acesso, como celulares e gravadores.”
O trabalho é de autoria de Victor dos Santos Silva, Yan Anderson Pires de Oliveira, Fabiano Francisco de Lima, Mariana Lopes Pestana, Regina M. Carvalho Pinto, Rosana Câmara Agondi, Marcelo Finger, Larissa Cristina Berti, Flaviane Romani F. Svartman e Celso Ricardo Fernandes Carvalho. A pesquisa teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por meio dos processos 2023/00488-5, 2024/21681-0 e 2018/17788-3, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo 312279/2018-3.
