Hoje, o Quem faz o SPIRA é com Beatriz Raposo de Medeiros. Professora associada da Universidade de São Paulo desde agosto de 2021, ela iniciou sua trajetória docente na instituição ainda em fevereiro de 2003. Com ampla experiência na área de Linguística, atua principalmente nos campos da fonética, fonologia, linguagem, fala e canto, consolidando uma carreira marcada pelo rigor analítico e pela articulação entre diferentes dimensões da produção vocal.
Ao longo da entrevista, Beatriz evidencia como sua trajetória acadêmica se conecta ao SPIRA-BM, especialmente a partir de sua expertise em análise acústica da fala. Seu trabalho de pesquisa se organiza em duas vertentes principais: de um lado, as relações entre fala e canto, explorando como aspectos linguísticos interagem com a música; de outro, o interesse em compreender fenômenos linguísticos à luz de uma teoria fonológica dinâmica. Essas perspectivas aparecem na conversa ao destacar a importância de metodologias precisas, da diversidade dos dados de voz e da busca por análises que capturem a complexidade da fala em contextos mais naturais.
Para começar, professora, queria que você explicasse como se deu a sua entrada no SPIRA-BM, desde o ano em que isso aconteceu e como foi esse primeiro contato.
Bom, eu sou a Beatriz Raposo, professora de Fonética na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. O meu primeiro contato com o SPIRA-BM aconteceu durante a pandemia, em 2020, quando estávamos todos trabalhando de forma remota. Naquele período, houve uma iniciativa do professor Marcelo Finger de apresentar o projeto em uma programação da Associação Brasileira de Linguística, dentro do Abralin Ao Vivo. Eram várias palestras por dia, e uma delas tratava justamente do projeto, que já buscava identificar biomarcadores na voz e na fala, inicialmente com foco na COVID-19. Eu estava acompanhando a apresentação e, no momento das perguntas, fiz algumas questões mais específicas sobre voz e fala, que são a minha área de atuação. A professora Flaviane, que já participava do projeto, estava presente. No dia seguinte, ela entrou em contato comigo e me convidou para integrar a equipe. Eu aceitei, pois entendi que poderia contribuir com a parte de fonética, enquanto ela já atuava na fonologia. Também sugeri a participação de uma fonoaudióloga, a professora Larissa Berti, da UNESP, que trabalha na interface entre Fonoaudiologia e Linguística. Esse foi o início da minha participação, ainda antes de o projeto se tornar temático.
No início do projeto, ainda durante a pandemia, quais foram as suas primeiras ações como pesquisadora?
No começo, minha principal preocupação foi com o desenvolvimento do software de coleta de dados de voz. Embora eu não trabalhe diretamente com programação, existe uma etapa fundamental anterior, que envolve o desenho experimental. Linguistas e fonoaudiólogos têm experiência tanto na coleta de dados de áudio quanto na elaboração de experimentos — ou seja, em como apresentar tarefas aos participantes e que tipo de resposta queremos obter. Minha preocupação era que o software fosse amigável e permitisse a produção da fala da forma mais adequada possível. Nesse contexto, sugeri a inclusão de parlendas ou frases memorizadas. Isso porque existem diferentes tipos de coleta: emissão sustentada de vogais, leitura de frases e fala mais espontânea. A parlenda ocupa um lugar intermediário, pois é memorizada, mas não depende da leitura. Um exemplo foi a parlenda “Batatinha quando nasce”, escolhida por ser bastante conhecida. A ideia era estimular uma fala mais natural, sem a interferência da leitura, que pode induzir pausas e alterar a prosódia.
E como essa proposta da parlenda funcionou na prática durante a coleta de dados?
Na prática, surgiram situações interessantes. Algumas pessoas cantavam músicas, como “Atirei o pau no gato”, ou recitavam orações. Isso gerou uma diversidade de dados que não estava totalmente prevista. Para alguns pesquisadores, isso foi visto como um problema, porque dificultava a padronização. Em alguns casos, a coleta de parlendas foi até interrompida. Mas eu considero essa diversidade muito rica, porque amplia as possibilidades de análise da fala em condições mais espontâneas. Sempre defendi que, se a pessoa não lembrasse exatamente da parlenda, poderia receber um estímulo inicial — como “batatinha” — e continuar a partir daí, sem necessidade de correção. O objetivo não é padronizar totalmente, mas observar a fala em condições mais naturais. Também houve discussões sobre o uso de apoio visual, como placas com frases. No caso das frases, a leitura é esperada. Mas, no caso das parlendas, o ideal é justamente evitar a leitura, para não interferir na naturalidade da produção.
Atualmente, quais são as suas principais preocupações dentro do SPIRA-BM?
Minhas preocupações estão em diferentes níveis. A primeira é garantir uma boa análise acústica dos dados. Trabalhamos com softwares específicos, como o Praat, que é amplamente utilizado na área de fonética. Para isso, é necessário conhecimento técnico consistente. Minha intenção é trazer para o projeto o rigor metodológico que desenvolvemos na pesquisa e no ensino de fonética. Isso envolve o uso adequado das ferramentas e das configurações de análise. Outra preocupação importante é a parlenda. Já temos diversos estudos publicados sobre biomarcadores a partir da fala lida, mas ainda não exploramos suficientemente os dados de fala mais espontânea. Para mim, esse é um dos principais desafios atuais. Também estou envolvida na orientação de uma aluna de iniciação científica que pretende trabalhar com análise de qualidade de voz. Estamos utilizando softwares específicos que medem parâmetros como frequência fundamental e características vocais, como soprosidade e crepitação.
Pensando em publicações, há perspectiva de estudos focados na parlenda? Como isso deve se organizar dentro do projeto?
Sim, há essa perspectiva. À medida que avançarmos nas análises de qualidade de voz, será possível desenvolver estudos específicos com foco nesses dados mais variados. Essas publicações devem ocorrer de forma colaborativa, envolvendo pesquisadores da Linguística, da Fonoaudiologia e também da área da Saúde, como os grupos ligados ao Hospital das Clínicas. O projeto é estruturado em diferentes frentes, e as publicações refletem essa organização.
Esses estudos podem ser publicados em diferentes áreas? Como vocês definem os periódicos?
Hoje há muitos periódicos interdisciplinares, o que facilita bastante. Estudos sobre qualidade de voz interessam tanto à Linguística quanto à Fonoaudiologia. Na Linguística, podemos citar periódicos como o Journal of Phonetics e o Journal of the Acoustical Society of America. Na Fonoaudiologia, há o Journal of Voice. Já na área médica, especialmente por conta dos biomarcadores, também há espaço em revistas interdisciplinares. A escolha depende do enfoque do artigo, mas o caráter interdisciplinar do SPIRA-BM amplia bastante as possibilidades.
Como a sua trajetória acadêmica se relaciona com o SPIRA-BM?
Minha relação com o projeto se dá principalmente pela minha formação como foneticista. A análise acústica da fala é uma das habilidades centrais da área. No entanto, minha linha de pesquisa não é diretamente voltada para biomarcadores ou voz patológica. Eu trabalho mais com relações entre fala e canto, além de temas como prosódia. A prosódia, inclusive, tem relação com a qualidade de voz, o que aproxima minhas pesquisas do projeto. Coordeno também um grupo de estudos em fonética, no qual os alunos desenvolvem temas diversos, como sincronização da fala, línguas assobiadas, vocalismo na canção e voz na dublagem. Recentemente, uma aluna passou a se interessar diretamente pela questão dos biomarcadores, o que mostra como o projeto também tem potencial para abrir novas frentes de pesquisa dentro da área.
