Pesquisadores do SPIRA-BM explicam por que não existe “um” biomarcador de voz — e sim um mapa de assinaturas vocais distintas para tabagismo e asma grave
Se existe uma ideia errada sobre o SPIRA-BM, é a de que o projeto busca criar um único “detector universal” capaz de apontar, a partir de qualquer áudio, se uma pessoa está doente ou não. Na prática, o que a pesquisa vem construindo é bem mais sofisticado: um conjunto de assinaturas vocais diferentes, específicas para cada condição respiratória estudada — tabagismo, asma grave e insuficiência respiratória causada pela COVID-19. É o que mostram, em conjunto, as entrevistas de cinco pesquisadores do projeto, vindos de áreas que raramente dividem a mesma mesa: medicina, linguística, fisioterapia e ciência da computação.
O fio condutor: a mesma lógica, aplicada de formas diferentes
Quem ajuda a amarrar essa ideia é o pesquisador Marcelo Matheus Gauy, da UNESP, responsável pelo desenvolvimento de modelos de aprendizado profundo no projeto. Segundo ele, a lógica de triagem por celular muda de aplicação conforme a doença: no caso do tabagismo, o sistema funcionaria como uma espécie de feedback da evolução da voz do paciente ao longo do tratamento; já na asma, a ideia é usar a ferramenta para monitoramento contínuo e, possivelmente, para identificar sinais de que o paciente está caminhando para um momento de descontrole da doença. Ou seja: a tecnologia de base é a mesma, mas o que ela precisa “aprender a ouvir” muda completamente de um quadro clínico para outro.
Tabagismo: o esforço vocal que a medicina já reconhece
Na ponta clínica, a cardiologista Jaqueline Scholz, do InCor-HCFMUSP, descreve o que a inflamação causada pelo cigarro provoca na voz: o engrossamento da tonalidade — mais perceptível em mulheres, cuja voz naturalmente mais aguda torna a mudança mais evidente — e um esforço maior para simplesmente sustentar a fala. É um efeito que a experiência clínica já reconhece mesmo sem qualquer equipamento, mas que o SPIRA-BM tenta capturar de forma objetiva, inclusive em estágios mais precoces, antes que a alteração fique audível a olho (ou ouvido) nu.
Asma: pausas na fala como pista linguística
Enquanto isso, a linguista Flaviane Romani Fernandes Svartman analisa outro tipo de sinal: não o timbre da voz, mas o ritmo da fala. Segundo ela, a duração das pausas entre palavras funciona como um marcador que aparece de forma diferente dependendo da condição — muito exacerbado em pacientes de COVID-19, mas presente também, de forma mais intermediária, em pacientes com asma. É um achado que ilustra bem por que o projeto reúne linguistas ao lado de médicos: o que poderia parecer só uma “pausa” natural da fala carrega, na verdade, informação clínica.
Esse recorte da asma é aprofundado pelo fisioterapeuta Celso Carvalho Fernandes de Carvalho, que já reuniu cerca de 500 pacientes com asma grave na base de dados do projeto — um dos maiores volumes desse tipo de estudo no mundo. A partir dessa base, ele já identificou biomarcadores de áudio específicos para esse quadro, com uma meta ambiciosa no horizonte: conseguir prever uma crise de asma antes que ela aconteça, e não apenas identificá-la depois do fato.
O trabalho invisível: separar sinal de ruído
Nada disso funcionaria, porém, sem o trabalho de quem cuida da engenharia por trás dos modelos. É aí que entra Arnaldo Candido Junior, da UNESP, um dos responsáveis pela frente de big data do SPIRA-BM. Ele explica que os áudios coletados vêm de ambientes muito diferentes — hospitais, em um lado, e a própria internet, do outro, no caso do grupo controle — e que um dos maiores desafios foi impedir que o ruído desses ambientes interferisse na análise. A solução encontrada foi, inclusive, injetar ruído hospitalar propositalmente nos áudios do grupo controle, para equilibrar as condições e evitar que o modelo “aprendesse” a distinguir hospital de casa em vez de doente de saudável.
Por que esse mapa de sinais importa
O recorte é relevante justamente pela escala dos problemas envolvidos. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil tem hoje cerca de 20 milhões de pessoas com asma, entre crianças e adultos, condição que responde por aproximadamente 350 mil internações por ano e é a terceira maior causa de hospitalização pelo SUS. A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, trata a asma como uma das principais doenças crônicas não transmissíveis do mundo, com impacto direto na qualidade de vida e no absenteísmo escolar e profissional. Já o tabagismo, tema de outra frente do projeto, voltou a crescer no Brasil depois de quase 20 anos de queda — a prevalência de fumantes adultos subiu de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, segundo o Ministério da Saúde.
Diante desses números, a proposta do SPIRA-BM ganha um contorno mais nítido: não se trata de substituir o diagnóstico médico por um aplicativo, mas de construir, doença por doença, sinal por sinal, uma camada extra de triagem acessível — usando uma ferramenta que praticamente todo brasileiro já carrega no bolso.
