{"id":918,"date":"2026-06-24T22:46:29","date_gmt":"2026-06-25T01:46:29","guid":{"rendered":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/?p=918"},"modified":"2026-06-25T14:23:42","modified_gmt":"2026-06-25T17:23:42","slug":"quem-faz-o-spira-jaqueline-scholz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/2026\/06\/24\/quem-faz-o-spira-jaqueline-scholz\/","title":{"rendered":"Quem faz o SPIRA \u2013 Jaqueline Scholz"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Para esta edi\u00e7\u00e3o do Quem faz o SPIRA, a \u201cvoz da vez\u201d \u00e9 da m\u00e9dica e pesquisadora Jaqueline Scholz, uma das pesquisadoras do projeto SPIRA-BM, com atua\u00e7\u00e3o na linha de investiga\u00e7\u00e3o sobre os efeitos do tabagismo e participa\u00e7\u00e3o nas coletas dessa frente de pesquisa. Refer\u00eancia nacional em tabagismo e preven\u00e7\u00e3o cardiovascular, Jaqueline atua no Instituto do Cora\u00e7\u00e3o (InCor-HCFMUSP), onde coordena o programa ambulatorial de tratamento do tabagismo. Ao longo de sua carreira, tornou-se uma das principais especialistas brasileiras na abordagem cl\u00ednica da depend\u00eancia de nicotina, com forte atua\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m em inova\u00e7\u00e3o em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Em nossa conversa, falamos sobre sua trajet\u00f3ria na cria\u00e7\u00e3o do ambulat\u00f3rio de cessa\u00e7\u00e3o do tabagismo no InCor, os desafios cl\u00ednicos do tratamento da depend\u00eancia de nicotina e o papel de novas tecnologias, como a Intelig\u00eancia Artificial e a an\u00e1lise de voz, no acompanhamento de pacientes e no avan\u00e7o da pesquisa em tabagismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para come\u00e7ar, gostaria que explicasse qual \u00e9 a sua motiva\u00e7\u00e3o em participar do SPIRA-BM, este projeto tem\u00e1tico e multidisciplinar que investiga, entre outras linhas, os efeitos do tabagismo na sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Eu considero essa iniciativa extremamente interessante porque, atualmente, a confirma\u00e7\u00e3o objetiva do tabagismo ainda depende de m\u00e9todos espec\u00edficos. No tratamento da cessa\u00e7\u00e3o, por exemplo, \u00e9 importante acompanhar se o paciente realmente interrompeu o consumo de cigarros. Hoje utilizamos, entre outras ferramentas, a monoximetria, exame que mede a concentra\u00e7\u00e3o de mon\u00f3xido de carbono no ar expirado e permite acompanhar indiretamente a exposi\u00e7\u00e3o recente \u00e0 fuma\u00e7a do cigarro combust\u00edvel. No entanto, esse procedimento exige a presen\u00e7a f\u00edsica do paciente. Quando surgiu a possibilidade de investigar se a an\u00e1lise da voz poderia contribuir para a identifica\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es associados ao tabagismo e \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o, a proposta me pareceu muito promissora. Em um contexto de expans\u00e3o da telemedicina, a possibilidade de contar com ferramentas complementares para acompanhamento remoto dos pacientes pode ampliar o acesso ao cuidado, especialmente para pessoas que vivem longe dos grandes centros. Por isso, considero que o projeto tem potencial para agregar conhecimento importante nessa \u00e1rea. Quando o professor Marcelo Finger me convidou para participar, discutimos justamente quais caracter\u00edsticas cl\u00ednicas poderiam estar relacionadas \u00e0 voz. E, na pr\u00e1tica, percebemos que alguns pacientes fumantes apresentam altera\u00e7\u00f5es vocais bastante evidentes. Um exemplo \u00e9 o edema de Reinke, condi\u00e7\u00e3o frequentemente associada ao tabagismo, em que ocorre altera\u00e7\u00e3o das pregas vocais e a voz pode se tornar mais grave e rouca, especialmente entre as mulheres. Tamb\u00e9m observamos, em alguns casos, maior esfor\u00e7o para falar e altera\u00e7\u00f5es na flu\u00eancia da fala. Como trabalho com tratamento do tabagismo, tenho a oportunidade de acompanhar muitos pacientes ao longo do processo de cessa\u00e7\u00e3o e observar os benef\u00edcios que surgem ap\u00f3s a interrup\u00e7\u00e3o do consumo. Frequentemente, essas melhoras s\u00e3o percebidas em um intervalo relativamente curto de tempo, inclusive entre pessoas mais idosas. Nesse sentido, o projeto pode contribuir para investigar, de forma objetiva, se existem marcadores vocais associados tanto ao tabagismo quanto \u00e0s mudan\u00e7as observadas ap\u00f3s a cessa\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma linha de pesquisa com potencial para ampliar nossa compreens\u00e3o dos impactos do cigarro sobre a sa\u00fade e para desenvolver novas ferramentas de acompanhamento cl\u00ednico<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea mencionou que o projeto oficial de coleta de dados j\u00e1 completou um ano. Como costuma ser a abordagem cl\u00ednica e qual tem sido a receptividade dos pacientes participantes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Os pacientes adoram. E ficam loucos para saber: &#8220;Ai, doutora, eu quero parar para ver depois&#8221;. Principalmente quem j\u00e1 tem altera\u00e7\u00e3o. Eu tenho pacientes que t\u00eam altera\u00e7\u00e3o de voz j\u00e1, tem outros que n\u00e3o t\u00eam nada, mas muda, eles ficam curiosos. &#8220;Ser\u00e1 que muda?&#8221; Falo: &#8220;A gente vai saber agora&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pegando carona no senso comum sobre a chamada &#8220;voz de fumante&#8221;, existe uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para essa altera\u00e7\u00e3o ser mais percept\u00edvel e prevalente nas mulheres?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Sim, porque a tonalidade da voz da mulher \u00e9 menos grave, os homens t\u00eam timbres mais graves. E quando voc\u00ea inflama as cordas vocais, voc\u00ea muda a tonalidade. Por isso que muda a voz, o paciente fala: &#8220;Doutora, quando eu atendo o telefone, o pessoal acha que eu sou um homem falando&#8221;. Porque na mulher fica mais evidente essa mudan\u00e7a do timbre vocal, porque a nossa voz \u00e9 mais aguda, sons m\u00e9dios e agudos, a mudan\u00e7a \u00e9 mais percept\u00edvel. Rouquid\u00e3o, esfor\u00e7o para falar&#8230; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a tonalidade da voz, \u00e9 o espa\u00e7o que a pessoa faz para que aquela corda vocal vibre, ela cansa de falar. \u00c9 impressionante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Essas altera\u00e7\u00f5es na voz, tanto em homens quanto em mulheres, costumam levar quanto tempo de exposi\u00e7\u00e3o ao cigarro para se tornarem clinicamente evidentes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Em geral, as altera\u00e7\u00f5es vocais mais evidentes s\u00e3o observadas em fumantes com longa hist\u00f3ria de exposi\u00e7\u00e3o ao tabaco, muitas vezes de d\u00e9cadas. O interessante do nosso protocolo \u00e9 justamente investigar se j\u00e1 existem mudan\u00e7as mais precoces, em indiv\u00edduos mais jovens ou com menor tempo de exposi\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o s\u00e3o percept\u00edveis apenas pela avalia\u00e7\u00e3o auditiva cl\u00ednica convencional, mas que poderiam ser identificadas por m\u00e9todos mais sens\u00edveis de an\u00e1lise. No protocolo, o participante realiza a emiss\u00e3o sustentada de vogal, a leitura de uma frase e a repeti\u00e7\u00e3o de uma parlenda, como \u201cbatatinha quando nasce\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mesmo que um paciente fume h\u00e1 30 ou 40 anos e n\u00e3o apresente uma grande mudan\u00e7a percept\u00edvel na voz, que outros danos internos graves, como a DPOC (Doen\u00e7a Pulmonar Obstrutiva Cr\u00f4nica), j\u00e1 podem estar estabelecidos de forma silenciosa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline<\/strong>: Exatamente. Nem todo paciente com DPOC apresenta altera\u00e7\u00f5es vocais evidentes, mas existem outros sinais cl\u00ednicos importantes. Uma quest\u00e3o que costumo explicar \u00e9 que muitos fumantes de longa data j\u00e1 apresentam altera\u00e7\u00f5es pulmonares mesmo antes de perceber sintomas significativos. Se avaliarmos indiv\u00edduos acima dos 50 anos com uma longa hist\u00f3ria de tabagismo, frequentemente encontramos altera\u00e7\u00f5es em exames de imagem e na fun\u00e7\u00e3o pulmonar. O que chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que, muitas vezes, a doen\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 presente e o paciente n\u00e3o percebe. Isso acontece porque a DPOC, incluindo o enfisema pulmonar, costuma ter uma evolu\u00e7\u00e3o gradual. Ao longo do tempo, a pessoa vai perdendo capacidade respirat\u00f3ria de forma progressiva e, sem perceber, adapta seu estilo de vida a essa limita\u00e7\u00e3o, reduzindo atividades que exigem maior esfor\u00e7o f\u00edsico. Por isso, quando perguntamos se sente falta de ar ou cansa\u00e7o, muitos pacientes inicialmente respondem que n\u00e3o. Em alguns casos, mesmo indiv\u00edduos com comprometimento pulmonar importante relatam poucos sintomas. Em fases mais avan\u00e7adas, pode ocorrer perda de peso involunt\u00e1ria, associada ao aumento do gasto energ\u00e9tico necess\u00e1rio para manter o trabalho respirat\u00f3rio. Respirar \u00e9 uma atividade cont\u00ednua e essencial. Quando a fun\u00e7\u00e3o pulmonar est\u00e1 comprometida, o organismo precisa empregar mais esfor\u00e7o para realizar uma tarefa que normalmente ocorre de forma autom\u00e1tica. Com o tempo, isso pode gerar limita\u00e7\u00f5es importantes na qualidade de vida. Por essa raz\u00e3o, a cessa\u00e7\u00e3o do tabagismo traz benef\u00edcios muito relevantes. Um aspecto interessante \u00e9 que muitos pacientes s\u00f3 percebem o quanto estavam limitados depois que param de fumar e apresentam melhora cl\u00ednica. N\u00e3o raro, eles comentam: \u201cAgora percebo que estou melhor\u201d. Ou seja, a melhora acaba revelando uma limita\u00e7\u00e3o que antes havia sido incorporada \u00e0 rotina sem que a pessoa se desse conta. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 voz, algo que eu j\u00e1 havia comentado com o Marcelo durante a elabora\u00e7\u00e3o do protocolo \u00e9 que, na pr\u00e1tica cl\u00ednica, percebemos algumas caracter\u00edsticas sutis em determinados pacientes com comprometimento respirat\u00f3rio. Muitas vezes, a fala se torna mais entrecortada, com pausas respirat\u00f3rias mais frequentes ao longo das frases. S\u00e3o observa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas que podem passar despercebidas no dia a dia, mas que levantam a hip\u00f3tese de que existam padr\u00f5es ac\u00fasticos associados \u00e0 fun\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria e que possam ser identificados de forma mais objetiva por ferramentas de an\u00e1lise de voz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Do ponto de vista do acompanhamento cl\u00ednico de 12 semanas do protocolo, em quanto tempo o paciente come\u00e7a a notar os primeiros sinais de recupera\u00e7\u00e3o f\u00edsica e respirat\u00f3ria ap\u00f3s parar de fumar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Ent\u00e3o, eu fa\u00e7o o protocolo com 12 semanas. Agora o Marcelo (Finger) \u00e9 que vai ver l\u00e1 nos dados o que muda. Mas a gente percebe que no paciente, rapidamente, ele j\u00e1 melhora. Uma semana sem fumar, a pessoa consegue subir escada melhor, faz um espa\u00e7o f\u00edsico e recupera. N\u00e3o que ela n\u00e3o se canse, mas ela recupera o f\u00f4lego mais r\u00e1pido. S\u00e3o v\u00e1rias coisas. Parar de fumar \u00e9 uma coisa muito boa em qualquer etapa de vida. Mas claro que naquele indiv\u00edduo que j\u00e1 est\u00e1 com a sa\u00fade debilitada, eu falo que parar de fumar \u00e9 um sopro de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para profissionais que utilizam diretamente a voz como ferramenta de trabalho, como cantores, o impacto prejudicial do cigarro costuma se manifestar mais cedo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Com certeza. Eu j\u00e1 tratei pessoas que cantam. A pessoa vem mais r\u00e1pido, vem mais cedo. Com uns 30 j\u00e1 est\u00e1 batendo aqui na porta, com 30 anos de idade. Porque j\u00e1 percebe que o tabagismo inflama as cordas vocais. Ent\u00e3o parar de fumar \u00e9 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ainda sobre a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 fuma\u00e7a, embora em menor escala se comparado ao fumante ativo, o fumante passivo tamb\u00e9m corre riscos de sofrer altera\u00e7\u00f5es na voz e outros danos \u00e0 sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jaqueline: Ent\u00e3o, eu n\u00e3o sei se para a voz, mas as doen\u00e7as cardiovasculares est\u00e3o bem estabelecidas, sendo o motivo pelo qual as leis antifumo foram estabelecidas, de restri\u00e7\u00e3o de fumar em ambiente p\u00fablico, fechado, bares, restaurantes e tudo mais. Eu falo assim: se a pessoa n\u00e3o pode fumar em um ambiente coletivo para proteger o outro, imagina na casa dela. O senso comum \u00e9 que as pessoas j\u00e1 fazem isso, procuram fumar na varanda, na \u00e1rea externa da casa, exatamente para n\u00e3o contaminar. A gente sabe que o risco cardiovascular j\u00e1 est\u00e1 bem comprovado, e por isso essas medidas s\u00e3o tomadas. Mas especificamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 voz, imagino que n\u00e3o deva ser bom tamb\u00e9m. \u00c9 que a quantidade de exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 infinitas vezes menor do que aquele indiv\u00edduo que se exp\u00f5e, que \u00e9 o usu\u00e1rio ativo, vamos dizer. Mas existe sim material particulado, nitrosaminas, subst\u00e2ncias que ficam dispersas, impactadas nos m\u00f3veis, nos utens\u00edlios. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o vapor do uso, ou aerossol, ou a fuma\u00e7a do cigarro. Voc\u00ea ainda deixa material particulado sobre os utens\u00edlios, sobre a cama, sobre o sof\u00e1, dentro do carro. J\u00e1 tem muitos estudos que avaliam, coletam material do estofamento do carro, de carros em que as pessoas fumam ou n\u00e3o fumam, mostrando a contamina\u00e7\u00e3o, e a crian\u00e7a \u00e0s vezes entra em contato, p\u00f5e na boca, engole, ingere. Existe contamina\u00e7\u00e3o do ambiente, com toda certeza. Tanto faz cigarro eletr\u00f4nico quanto convencional. Por isso que quem usa deve sempre usar em um ambiente aberto, para n\u00e3o contaminar o ambiente domiciliar ou coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O nosso SPIRA-BM engloba tamb\u00e9m linhas de pesquisa focadas em asma grave e insufici\u00eancia respirat\u00f3ria. No perfil de pacientes que a senhora atende, o uso de novos dispositivos, como o cigarro eletr\u00f4nico, tem agravado ou desencadeado essas comorbidades?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Tem. A gente at\u00e9 aponta quando tem. No caso, a asma \u00e9 uma doen\u00e7a mais de pessoas jovens. Por outro lado, a gente vai ter fumantes, pacientes que s\u00e3o tabagistas de mais longo prazo. \u00c0s vezes, temos a turma do eletr\u00f4nico, que tende a desencadear muito quadro de asma tamb\u00e9m. O eletr\u00f4nico tem os componentes diferentes do cigarro convencional. Ele n\u00e3o tem combust\u00e3o, mas tem mais de 2 mil subst\u00e2ncias. Tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 nada legal. Nada legal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E entre essas milhares de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas presentes no cigarro eletr\u00f4nico, imagino que nenhuma traga qualquer benef\u00edcio, certo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Ent\u00e3o, a quantidade de nicotina \u00e9 excepcionalmente alta. E tamb\u00e9m tem, entre esses componentes, outras subst\u00e2ncias que no cigarro convencional n\u00e3o tem. Porque voc\u00ea usa o propilenoglicol e o glicerol, que, quando aquecidos, para dar o aerossol da nicotina para ele adentrar o pulm\u00e3o, precisa de um ve\u00edculo. O ve\u00edculo \u00e9 esse: o propilenoglicol e o glicerol. Assim, quando aquecido, forma compostos carbon\u00edlicos, que s\u00e3o muito ruins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Existe um perfil de idade mais associado ao consumo do eletr\u00f4nico, e como se compara a intensidade desse uso di\u00e1rio com o cigarro convencional?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Sim, o pessoal \u00e9 mais jovem. Voc\u00ea pega pessoas que est\u00e3o usando o produto h\u00e1 um ano, dois anos, tr\u00eas anos, quatro anos, alguns cinco. Mas tem essa diferen\u00e7a. A intensidade do uso \u00e9 muito maior. Enquanto quem fuma um ma\u00e7o d\u00e1 200, 250 tragadas no dia, quem fuma eletr\u00f4nico d\u00e1 1.000, 2.000, 3.000, 4.000 tragadas no dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H\u00e1 pacientes que chegam ao consult\u00f3rio utilizando os dois tipos simultaneamente? Qual \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica nesses casos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Existe e \u00e9 perigoso. At\u00e9 falo: escolhe um at\u00e9 parar de fumar, pois a associa\u00e7\u00e3o potencializa o risco. Voc\u00ea tem o risco ruim das duas subst\u00e2ncias. Primeiro, do eletr\u00f4nico, pela alta concentra\u00e7\u00e3o de nicotina, que voc\u00ea n\u00e3o veria num cigarro convencional. E, do outro lado, voc\u00ea tem a combust\u00e3o, do mon\u00f3xido de carbono, o aquecimento com a combust\u00e3o parcial, com a forma\u00e7\u00e3o dessas subst\u00e2ncias, que tamb\u00e9m s\u00e3o ruins. Ent\u00e3o voc\u00ea tem o ruim dos dois mundos. Isso agrava muito o risco cardiovascular e doen\u00e7as pulmonares, e por isso que a gente fala para o paciente: escolhe um. A ideia \u00e9 que ele pare, obviamente, mas como o nosso tratamento n\u00e3o trabalha com cessa\u00e7\u00e3o imediata, o indiv\u00edduo, \u00e0s vezes, durante o come\u00e7o do tratamento, demora tr\u00eas, quatro semanas para parar de fumar, a gente o orienta: escolhe um s\u00f3, pisa num barco s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Avaliando o cen\u00e1rio do tabagismo no Brasil, o per\u00edodo da pandemia da COVID-19 provocou um retrocesso no n\u00famero de fumantes ou no acesso ao tratamento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> A pandemia piorou. Primeiro, muita gente que estava sem fumar voltou a fumar, porque achou que era o fim do mundo. Ent\u00e3o, teve muita reca\u00edda. Eu mesma tratei v\u00e1rios pacientes meus que estavam sem fumar, e na pandemia n\u00e3o seguraram a onda, n\u00e3o. Mas tudo bem, o importante \u00e9 que voltaram, se recolocaram. At\u00e9 mesmo o acesso ao SUS foi interrompido. Ningu\u00e9m sabia o que fazer direito, pode-se dizer assim. E uma das coisas mais erradas que teve foi o fechamento dos ambulat\u00f3rios, servi\u00e7os de sa\u00fade, onde teve o represamento de v\u00e1rias pessoas com doen\u00e7as graves, que precisavam de interven\u00e7\u00e3o, mas que naquele momento o entendimento equivocado foi que deveria ser suspenso. Inclusive, no SUS, voc\u00ea tem um atendimento gratuito pelo SUS, e os n\u00fameros apontam que teve 2 mil atendimentos. Agora que voltou, que ainda \u00e9 um n\u00famero baixo, \u00e9 20 mil, s\u00f3 para voc\u00ea ter uma ideia da dimens\u00e3o do que foi o atendimento do tratamento de tabagismo na \u00e9poca da pandemia. E outro cen\u00e1rio que foi muito ruim na pandemia foi, pela classe m\u00e9dia alta, o consumo de cigarro eletr\u00f4nico. Nesse contexto, a gente viu um aumento do n\u00famero de usu\u00e1rios por conta dessa falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o e o cigarro eletr\u00f4nico foi um dos que mais adentrou a casa das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Apesar do avan\u00e7o recente do cigarro eletr\u00f4nico, historicamente o Brasil pode ser considerado uma refer\u00eancia global no combate ao tabagismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Sim. O Brasil \u00e9 reconhecido internacionalmente pelas pol\u00edticas p\u00fablicas de controle do tabagismo e conseguiu reduzir de forma expressiva a preval\u00eancia de fumantes nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Hoje temos um novo desafio, que s\u00e3o os cigarros eletr\u00f4nicos, mas a manuten\u00e7\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o da comercializa\u00e7\u00e3o desses produtos certamente ajudou a conter a expans\u00e3o desse mercado no pa\u00eds. Ainda assim, observamos um aumento recente do consumo de produtos de nicotina. Muitas vezes, a pessoa experimenta o cigarro eletr\u00f4nico, desenvolve depend\u00eancia e depois migra para outros produtos. Antes do surgimento dos eletr\u00f4nicos, as taxas de inicia\u00e7\u00e3o ao cigarro convencional entre adolescentes eram bastante baixas. Com a chegada desses dispositivos, houve um est\u00edmulo \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o de nicotina por parte dos jovens. Algumas pessoas acabam percebendo os problemas associados ao cigarro eletr\u00f4nico, mas, por j\u00e1 estarem dependentes da nicotina, procuram alternativas. Nesse contexto, houve um crescimento do uso de produtos como o cigarro de palha e o tabaco enrolado \u00e0 m\u00e3o, frequentemente vistos de forma equivocada como op\u00e7\u00f5es menos nocivas por serem menos industrializados. Existe uma tend\u00eancia de buscar justificativas para acreditar que determinado produto faz menos mal do que outro. O cigarro eletr\u00f4nico, por exemplo, foi apresentado por muitos como uma alternativa de menor risco, mas a realidade se mostrou mais complexa. Isso contribuiu para uma migra\u00e7\u00e3o para diferentes formas de consumo de tabaco e nicotina. Depois de cerca de duas d\u00e9cadas de queda cont\u00ednua na preval\u00eancia de fumantes, observou-se uma interrup\u00e7\u00e3o dessa tend\u00eancia e, em alguns indicadores, aumento do consumo de produtos relacionados \u00e0 nicotina. Acreditamos que pol\u00edticas p\u00fablicas consistentes s\u00e3o fundamentais para enfrentar esse cen\u00e1rio, especialmente diante do surgimento constante de novos produtos pela ind\u00fastria, como os sach\u00eas de nicotina. No fim das contas, trata-se de produtos voltados \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia. E vender depend\u00eancia \u00e9 um neg\u00f3cio muito lucrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Diante da cobran\u00e7a m\u00e9dica que muitas vezes gera vergonha e faz o paciente omitir o h\u00e1bito de fumar, como as novas metodologias, incluindo a an\u00e1lise da voz em desenvolvimento no SPIRA-BM, podem atuar como aliadas no diagn\u00f3stico e contornar esse vi\u00e9s do autorrelato?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Como eu mencionei, uma ferramenta como essa pode ser especialmente \u00fatil em atendimentos por telemedicina, que hoje representam um desafio importante em diversos sistemas de sa\u00fade. Muitas vezes, informa\u00e7\u00f5es sobre o tabagismo dependem exclusivamente do relato do paciente. Imagine algu\u00e9m que est\u00e1 se preparando para uma cirurgia ou outro procedimento: por receio de julgamento ou por constrangimento, essa pessoa pode omitir que fuma. Na pr\u00e1tica cl\u00ednica, nem sempre existem instrumentos objetivos dispon\u00edveis para confirmar essa informa\u00e7\u00e3o. Equipamentos como os monox\u00edmetros, que medem a concentra\u00e7\u00e3o de mon\u00f3xido de carbono no ar expirado, s\u00e3o utilizados em alguns servi\u00e7os e centros de pesquisa, mas n\u00e3o est\u00e3o amplamente dispon\u00edveis em todas as unidades de sa\u00fade. Por isso, frequentemente trabalhamos com o autorrelato do paciente, que pode estar sujeito a vieses. Nesse contexto, metodologias complementares, como a an\u00e1lise da voz, podem se tornar aliadas importantes. Elas podem fornecer informa\u00e7\u00f5es adicionais que auxiliem na identifica\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es associados ao tabagismo e contribuam para um diagn\u00f3stico mais preciso. Muitas vezes, o paciente omite o h\u00e1bito de fumar por medo, vergonha ou outras raz\u00f5es. Sabemos que a maioria das pessoas tem consci\u00eancia dos riscos do tabagismo, mas isso, por si s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 suficiente para interromper o consumo, porque estamos lidando com uma depend\u00eancia. Em alguns casos, o profissional de sa\u00fade enfatiza a necessidade de parar de fumar, mas nem sempre consegue oferecer todo o suporte terap\u00eautico necess\u00e1rio para essa mudan\u00e7a. Quando a abordagem se limita \u00e0 cobran\u00e7a, sem um acompanhamento adequado, o paciente pode acabar evitando o assunto ou omitindo informa\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, alguns profissionais podem priorizar problemas para os quais disp\u00f5em de interven\u00e7\u00f5es mais imediatas e objetivas, como hipertens\u00e3o, diabetes ou colesterol elevado. O tratamento do tabagismo, por sua vez, exige uma abordagem mais ampla. Os medicamentos podem fazer parte do processo, mas geralmente n\u00e3o s\u00e3o suficientes isoladamente. O sucesso da cessa\u00e7\u00e3o costuma depender da combina\u00e7\u00e3o de diferentes estrat\u00e9gias, incluindo acompanhamento profissional, apoio comportamental e, quando indicado, tratamento farmacol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Muitas vezes o paciente v\u00ea o cigarro como um suporte emocional ou um &#8220;acolhimento&#8221; para lidar com a ansiedade e a depress\u00e3o. Como a sua abordagem terap\u00eautica trabalha essa quest\u00e3o psicol\u00f3gica e comportamental?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline:<\/strong> Em geral, fumantes com muitos anos de consumo ou que j\u00e1 tentaram parar de fumar sem sucesso apresentam algum grau de depend\u00eancia da nicotina e podem se beneficiar de tratamento especializado. Tamb\u00e9m \u00e9 relativamente comum a presen\u00e7a de transtornos como ansiedade e depress\u00e3o entre pessoas que fumam, embora essas condi\u00e7\u00f5es nem sempre estejam diagnosticadas. Em alguns casos, esse pode ser um dos principais obst\u00e1culos ao tratamento. O paciente percebe que a nicotina proporciona uma sensa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de al\u00edvio ou bem-estar emocional e, por isso, tem dificuldade em abandonar o cigarro. Por isso, nossa abordagem leva em considera\u00e7\u00e3o esses aspectos psicol\u00f3gicos e comportamentais, buscando identificar e tratar adequadamente poss\u00edveis transtornos associados. Muitas vezes, quando essas condi\u00e7\u00f5es recebem acompanhamento adequado, o paciente passa a se sentir melhor e percebe que existem formas mais eficazes e duradouras de alcan\u00e7ar equil\u00edbrio emocional do que por meio do cigarro. A nicotina produz efeitos de curta dura\u00e7\u00e3o, o que favorece ciclos repetidos de consumo e sintomas de abstin\u00eancia ao longo do dia. Essa altern\u00e2ncia pode ser percebida pelo fumante como uma oscila\u00e7\u00e3o do bem-estar, refor\u00e7ando a depend\u00eancia. O tratamento pode incluir medicamentos que ajudam a reduzir os sintomas de abstin\u00eancia e a fissura, al\u00e9m de outras estrat\u00e9gias terap\u00eauticas. Paralelamente, trabalhamos os aspectos comportamentais envolvidos no h\u00e1bito de fumar, j\u00e1 que o tabagismo tamb\u00e9m est\u00e1 associado a rotinas, gatilhos e condicionamentos constru\u00eddos ao longo do tempo. Utilizamos ainda uma estrat\u00e9gia que denomino \u201cfumar restrito\u201d, que funciona como um importante recurso complementar. A t\u00e9cnica permite que o paciente continue fumando dentro de regras espec\u00edficas durante uma fase do tratamento, favorecendo a redu\u00e7\u00e3o gradual do consumo e uma reflex\u00e3o mais cr\u00edtica sobre o papel que o cigarro ocupa em sua vida. Com a combina\u00e7\u00e3o de acompanhamento profissional, estrat\u00e9gias comportamentais e, quando necess\u00e1rio, medica\u00e7\u00e3o ajustada individualmente, muitos pacientes conseguem reduzir significativamente o consumo e aumentar suas chances de cessa\u00e7\u00e3o do tabagismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como cientista e m\u00e9dica que vivencia a rotina de consultas, de que maneira a senhora enxerga o papel e o impacto da Intelig\u00eancia Artificial (IA) na medicina atual e no avan\u00e7o do projeto SPIRA-BM?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline: <\/strong>Eu vejo a Intelig\u00eancia Artificial como uma ferramenta com grande potencial para apoiar tanto a pr\u00e1tica cl\u00ednica quanto a pesquisa. Na minha rotina, por exemplo, sempre houve uma preocupa\u00e7\u00e3o com a coleta sistem\u00e1tica de dados de qualidade. Inclusive, desenvolvi um software voltado ao acompanhamento do tratamento, que me permite registrar informa\u00e7\u00f5es dos pacientes e, posteriormente, analisar resultados, como taxas de cessa\u00e7\u00e3o do tabagismo e poss\u00edveis fatores associados ao sucesso terap\u00eautico. Nesse contexto, a IA pode trazer ganhos importantes. Ferramentas de transcri\u00e7\u00e3o e processamento de linguagem, por exemplo, podem auxiliar no registro das consultas e na organiza\u00e7\u00e3o estruturada das informa\u00e7\u00f5es em bancos de dados. Isso pode tornar a coleta de dados mais eficiente e reduzir a carga de trabalho relacionada ao preenchimento manual de registros. Para quem valoriza a intera\u00e7\u00e3o direta com o paciente, esse tipo de recurso \u00e9 especialmente interessante. Muitas vezes, durante a consulta, a prioridade \u00e9 a conversa e a escuta cl\u00ednica, o que pode dificultar o registro detalhado de todas as informa\u00e7\u00f5es relevantes. Ferramentas baseadas em IA podem ajudar a preservar esses dados de forma mais completa e organizada, beneficiando tanto o atendimento quanto futuras an\u00e1lises cient\u00edficas. Al\u00e9m disso, a IA tem potencial para facilitar etapas de processamento e an\u00e1lise de grandes volumes de dados, contribuindo para a gera\u00e7\u00e3o de conhecimento a partir das informa\u00e7\u00f5es coletadas na pr\u00e1tica cl\u00ednica. No caso espec\u00edfico do projeto SPIRA-BM, o aspecto mais promissor est\u00e1 na capacidade de identificar padr\u00f5es em sinais de \u00e1udio que n\u00e3o s\u00e3o percept\u00edveis \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o humana convencional. M\u00e9todos de Intelig\u00eancia Artificial e aprendizado de m\u00e1quina podem analisar caracter\u00edsticas ac\u00fasticas complexas, como par\u00e2metros espectrais, temporais e de frequ\u00eancia, e investigar sua associa\u00e7\u00e3o com diferentes condi\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias e perfis cl\u00ednicos. Essa capacidade de extrair informa\u00e7\u00f5es de grandes conjuntos de dados ac\u00fasticos abre novas possibilidades para o desenvolvimento de biomarcadores digitais e ferramentas de apoio ao diagn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para encerrar, Doutora, mudando um pouco para o \u00e2mbito pessoal: como se iniciou a sua carreira como pesquisadora, professora e cardiologista, e o que a motivou a escolher especificamente a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e o combate ao tabagismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jaqueline<\/strong>: Na verdade, minha atua\u00e7\u00e3o na \u00e1rea do tabagismo n\u00e3o surgiu por iniciativa pr\u00f3pria. Sou cardiologista de forma\u00e7\u00e3o e trabalhava no ambulat\u00f3rio de preven\u00e7\u00e3o do InCor ap\u00f3s ingressar na institui\u00e7\u00e3o como m\u00e9dica assistente por concurso p\u00fablico. Na \u00e9poca, atuava principalmente no atendimento de pacientes com dislipidemias e colesterol elevado. Em 1993, o InCor criou um grupo voltado \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da qualidade de vida. Entre os temas contemplados estava o tabagismo, e fui convidada a assumir essa frente. Aceitei a miss\u00e3o com muita convic\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m por raz\u00f5es pessoais. Assim como ocorreu com muitas fam\u00edlias, a minha foi profundamente impactada pelo cigarro. Meu pai era fumante e faleceu em decorr\u00eancia de um c\u00e2ncer de pulm\u00e3o. Minha m\u00e3e sofreu um infarto agudo do mioc\u00e1rdio aos 38 anos de idade, em 1978. Naquela \u00e9poca, um evento desse tipo em uma mulher t\u00e3o jovem n\u00e3o era comum. Ela tamb\u00e9m fumava e, ap\u00f3s o infarto, recebeu uma orienta\u00e7\u00e3o muito direta da m\u00e9dica que a acompanhava. Eu e minha irm\u00e3 \u00e9ramos crian\u00e7as e est\u00e1vamos presentes. A m\u00e9dica perguntou quantos filhos ela tinha e, ao ouvir que eram quatro, perguntou se ela queria v\u00ea-los crescer. Diante da gravidade da situa\u00e7\u00e3o, minha m\u00e3e parou de fumar imediatamente e nunca mais voltou ao h\u00e1bito. Meu pai tamb\u00e9m tentou parar de fumar, inclusive para apoiar minha m\u00e3e, mas n\u00e3o conseguiu. Ele tinha uma depend\u00eancia muito importante da nicotina e acabou falecendo anos depois. Essa experi\u00eancia me mostrou, desde cedo, o quanto parar de fumar pode ser extremamente dif\u00edcil, mesmo quando a pessoa conhece os riscos envolvidos. Quando assumi a \u00e1rea de tabagismo no InCor, percebi que n\u00e3o existia um ambulat\u00f3rio espec\u00edfico para o tratamento desses pacientes. Pedi autoriza\u00e7\u00e3o ao professor S\u00e9rgio Diogo Giannini para dedicar parte da minha carga assistencial \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um ambulat\u00f3rio de cessa\u00e7\u00e3o do tabagismo. Com sua autoriza\u00e7\u00e3o, passamos a atender fumantes em um per\u00edodo espec\u00edfico da semana, e foi assim que come\u00e7ou minha trajet\u00f3ria nessa \u00e1rea. Desde ent\u00e3o, procurei aperfei\u00e7oar continuamente as estrat\u00e9gias de tratamento. Com o surgimento de novos medicamentos e a experi\u00eancia acumulada ao longo dos anos, fui modificando a abordagem cl\u00ednica. Em vez de orientar o paciente a eliminar imediatamente todos os gatilhos associados ao cigarro \u2014 algo muito dif\u00edcil para quem convive com o tabagismo em praticamente todos os momentos do dia \u2014, passei a trabalhar com estrat\u00e9gias comportamentais mais graduais e estruturadas. Uma dessas abordagens \u00e9 a t\u00e9cnica que denomino \u201cfumar restrito\u201d, na qual o paciente mant\u00e9m temporariamente o consumo de cigarros, mas em condi\u00e7\u00f5es bastante espec\u00edficas, reduzindo a associa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica entre o cigarro e as atividades cotidianas. Associada ao tratamento medicamentoso e \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es frequentemente relacionadas ao tabagismo, como ansiedade e depress\u00e3o, essa estrat\u00e9gia produziu resultados muito positivos na pr\u00e1tica cl\u00ednica. O tabagismo envolve tanto depend\u00eancia qu\u00edmica quanto aspectos comportamentais e emocionais. Por isso, acredito que o tratamento precisa contemplar todas essas dimens\u00f5es. Essa abordagem integrada tem contribu\u00eddo para taxas de sucesso muito expressivas entre os pacientes acompanhados. Por essa raz\u00e3o, nunca considerei necess\u00e1rio adotar o cigarro eletr\u00f4nico como estrat\u00e9gia terap\u00eautica de cessa\u00e7\u00e3o. Na minha experi\u00eancia cl\u00ednica, \u00e9 poss\u00edvel obter bons resultados utilizando abordagens baseadas em acompanhamento especializado, tratamento medicamentoso quando indicado e interven\u00e7\u00f5es comportamentais adequadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para esta edi\u00e7\u00e3o do Quem faz o SPIRA, a \u201cvoz da vez\u201d \u00e9 da m\u00e9dica e pesquisadora Jaqueline<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":919,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[],"post_badge":[],"class_list":["post-918","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticia"],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749.jpeg",938,540,false],"thumbnail":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749-150x150.jpeg",150,150,true],"medium":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749-300x173.jpeg",300,173,true],"medium_large":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749-768x442.jpeg",640,368,true],"large":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-600x1024.jpeg",600,1024,true],"1536x1536":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-900x1536.jpeg",900,1536,true],"2048x2048":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749.jpeg",938,540,false],"trp-custom-language-flag":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749-18x10.jpeg",18,10,true],"morenews-featured":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749.jpeg",938,540,false],"morenews-large":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749-825x540.jpeg",825,540,true],"morenews-medium":["https:\/\/spira.ime.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-22.44.05-e1782351970749-590x410.jpeg",590,410,true]},"author_info":{"info":["spira.bm"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/category\/noticia\/\" rel=\"category tag\">Not\u00edcia<\/a>","tag_info":"Not\u00edcia","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/918","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=918"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/918\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":922,"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/918\/revisions\/922"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/919"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=918"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=918"},{"taxonomy":"post_badge","embeddable":true,"href":"https:\/\/spira.ime.usp.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/post_badge?post=918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}