Para esta edição do Quem faz o SPIRA, a “voz da vez” é da médica e pesquisadora Jaqueline Scholz, uma das pesquisadoras do projeto SPIRA-BM, com atuação na linha de investigação sobre os efeitos do tabagismo e participação nas coletas dessa frente de pesquisa. Referência nacional em tabagismo e prevenção cardiovascular, Jaqueline atua no Instituto do Coração (InCor-HCFMUSP), onde coordena o programa ambulatorial de tratamento do tabagismo. Ao longo de sua carreira, tornou-se uma das principais especialistas brasileiras na abordagem clínica da dependência de nicotina, com forte atuação também em inovação em saúde e educação médica. Em nossa conversa, falamos sobre sua trajetória na criação do ambulatório de cessação do tabagismo no InCor, os desafios clínicos do tratamento da dependência de nicotina e o papel de novas tecnologias, como a Inteligência Artificial e a análise de voz, no acompanhamento de pacientes e no avanço da pesquisa em tabagismo.
Para começar, gostaria que explicasse qual é a sua motivação em participar do SPIRA-BM, este projeto temático e multidisciplinar que investiga, entre outras linhas, os efeitos do tabagismo na saúde?
Jaqueline: Eu considero essa iniciativa extremamente interessante porque, atualmente, a confirmação objetiva do tabagismo ainda depende de métodos específicos. No tratamento da cessação, por exemplo, é importante acompanhar se o paciente realmente interrompeu o consumo de cigarros. Hoje utilizamos, entre outras ferramentas, a monoximetria, exame que mede a concentração de monóxido de carbono no ar expirado e permite acompanhar indiretamente a exposição recente à fumaça do cigarro combustível. No entanto, esse procedimento exige a presença física do paciente. Quando surgiu a possibilidade de investigar se a análise da voz poderia contribuir para a identificação de padrões associados ao tabagismo e à cessação, a proposta me pareceu muito promissora. Em um contexto de expansão da telemedicina, a possibilidade de contar com ferramentas complementares para acompanhamento remoto dos pacientes pode ampliar o acesso ao cuidado, especialmente para pessoas que vivem longe dos grandes centros. Por isso, considero que o projeto tem potencial para agregar conhecimento importante nessa área. Quando o professor Marcelo Finger me convidou para participar, discutimos justamente quais características clínicas poderiam estar relacionadas à voz. E, na prática, percebemos que alguns pacientes fumantes apresentam alterações vocais bastante evidentes. Um exemplo é o edema de Reinke, condição frequentemente associada ao tabagismo, em que ocorre alteração das pregas vocais e a voz pode se tornar mais grave e rouca, especialmente entre as mulheres. Também observamos, em alguns casos, maior esforço para falar e alterações na fluência da fala. Como trabalho com tratamento do tabagismo, tenho a oportunidade de acompanhar muitos pacientes ao longo do processo de cessação e observar os benefícios que surgem após a interrupção do consumo. Frequentemente, essas melhoras são percebidas em um intervalo relativamente curto de tempo, inclusive entre pessoas mais idosas. Nesse sentido, o projeto pode contribuir para investigar, de forma objetiva, se existem marcadores vocais associados tanto ao tabagismo quanto às mudanças observadas após a cessação. Trata-se de uma linha de pesquisa com potencial para ampliar nossa compreensão dos impactos do cigarro sobre a saúde e para desenvolver novas ferramentas de acompanhamento clínico
Você mencionou que o projeto oficial de coleta de dados já completou um ano. Como costuma ser a abordagem clínica e qual tem sido a receptividade dos pacientes participantes?
Jaqueline: Os pacientes adoram. E ficam loucos para saber: “Ai, doutora, eu quero parar para ver depois”. Principalmente quem já tem alteração. Eu tenho pacientes que têm alteração de voz já, tem outros que não têm nada, mas muda, eles ficam curiosos. “Será que muda?” Falo: “A gente vai saber agora”.
Pegando carona no senso comum sobre a chamada “voz de fumante”, existe uma explicação científica para essa alteração ser mais perceptível e prevalente nas mulheres?
Jaqueline: Sim, porque a tonalidade da voz da mulher é menos grave, os homens têm timbres mais graves. E quando você inflama as cordas vocais, você muda a tonalidade. Por isso que muda a voz, o paciente fala: “Doutora, quando eu atendo o telefone, o pessoal acha que eu sou um homem falando”. Porque na mulher fica mais evidente essa mudança do timbre vocal, porque a nossa voz é mais aguda, sons médios e agudos, a mudança é mais perceptível. Rouquidão, esforço para falar… não é só a tonalidade da voz, é o espaço que a pessoa faz para que aquela corda vocal vibre, ela cansa de falar. É impressionante.
Essas alterações na voz, tanto em homens quanto em mulheres, costumam levar quanto tempo de exposição ao cigarro para se tornarem clinicamente evidentes?
Jaqueline: Em geral, as alterações vocais mais evidentes são observadas em fumantes com longa história de exposição ao tabaco, muitas vezes de décadas. O interessante do nosso protocolo é justamente investigar se já existem mudanças mais precoces, em indivíduos mais jovens ou com menor tempo de exposição, que não são perceptíveis apenas pela avaliação auditiva clínica convencional, mas que poderiam ser identificadas por métodos mais sensíveis de análise. No protocolo, o participante realiza a emissão sustentada de vogal, a leitura de uma frase e a repetição de uma parlenda, como “batatinha quando nasce”.
Mesmo que um paciente fume há 30 ou 40 anos e não apresente uma grande mudança perceptível na voz, que outros danos internos graves, como a DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), já podem estar estabelecidos de forma silenciosa?
Jaqueline: Exatamente. Nem todo paciente com DPOC apresenta alterações vocais evidentes, mas existem outros sinais clínicos importantes. Uma questão que costumo explicar é que muitos fumantes de longa data já apresentam alterações pulmonares mesmo antes de perceber sintomas significativos. Se avaliarmos indivíduos acima dos 50 anos com uma longa história de tabagismo, frequentemente encontramos alterações em exames de imagem e na função pulmonar. O que chama atenção é que, muitas vezes, a doença já está presente e o paciente não percebe. Isso acontece porque a DPOC, incluindo o enfisema pulmonar, costuma ter uma evolução gradual. Ao longo do tempo, a pessoa vai perdendo capacidade respiratória de forma progressiva e, sem perceber, adapta seu estilo de vida a essa limitação, reduzindo atividades que exigem maior esforço físico. Por isso, quando perguntamos se sente falta de ar ou cansaço, muitos pacientes inicialmente respondem que não. Em alguns casos, mesmo indivíduos com comprometimento pulmonar importante relatam poucos sintomas. Em fases mais avançadas, pode ocorrer perda de peso involuntária, associada ao aumento do gasto energético necessário para manter o trabalho respiratório. Respirar é uma atividade contínua e essencial. Quando a função pulmonar está comprometida, o organismo precisa empregar mais esforço para realizar uma tarefa que normalmente ocorre de forma automática. Com o tempo, isso pode gerar limitações importantes na qualidade de vida. Por essa razão, a cessação do tabagismo traz benefícios muito relevantes. Um aspecto interessante é que muitos pacientes só percebem o quanto estavam limitados depois que param de fumar e apresentam melhora clínica. Não raro, eles comentam: “Agora percebo que estou melhor”. Ou seja, a melhora acaba revelando uma limitação que antes havia sido incorporada à rotina sem que a pessoa se desse conta. Em relação à voz, algo que eu já havia comentado com o Marcelo durante a elaboração do protocolo é que, na prática clínica, percebemos algumas características sutis em determinados pacientes com comprometimento respiratório. Muitas vezes, a fala se torna mais entrecortada, com pausas respiratórias mais frequentes ao longo das frases. São observações clínicas que podem passar despercebidas no dia a dia, mas que levantam a hipótese de que existam padrões acústicos associados à função respiratória e que possam ser identificados de forma mais objetiva por ferramentas de análise de voz.
Do ponto de vista do acompanhamento clínico de 12 semanas do protocolo, em quanto tempo o paciente começa a notar os primeiros sinais de recuperação física e respiratória após parar de fumar?
Jaqueline: Então, eu faço o protocolo com 12 semanas. Agora o Marcelo (Finger) é que vai ver lá nos dados o que muda. Mas a gente percebe que no paciente, rapidamente, ele já melhora. Uma semana sem fumar, a pessoa consegue subir escada melhor, faz um espaço físico e recupera. Não que ela não se canse, mas ela recupera o fôlego mais rápido. São várias coisas. Parar de fumar é uma coisa muito boa em qualquer etapa de vida. Mas claro que naquele indivíduo que já está com a saúde debilitada, eu falo que parar de fumar é um sopro de vida.
Para profissionais que utilizam diretamente a voz como ferramenta de trabalho, como cantores, o impacto prejudicial do cigarro costuma se manifestar mais cedo?
Jaqueline: Com certeza. Eu já tratei pessoas que cantam. A pessoa vem mais rápido, vem mais cedo. Com uns 30 já está batendo aqui na porta, com 30 anos de idade. Porque já percebe que o tabagismo inflama as cordas vocais. Então parar de fumar é saúde.
Ainda sobre a exposição à fumaça, embora em menor escala se comparado ao fumante ativo, o fumante passivo também corre riscos de sofrer alterações na voz e outros danos à saúde?
Jaqueline: Então, eu não sei se para a voz, mas as doenças cardiovasculares estão bem estabelecidas, sendo o motivo pelo qual as leis antifumo foram estabelecidas, de restrição de fumar em ambiente público, fechado, bares, restaurantes e tudo mais. Eu falo assim: se a pessoa não pode fumar em um ambiente coletivo para proteger o outro, imagina na casa dela. O senso comum é que as pessoas já fazem isso, procuram fumar na varanda, na área externa da casa, exatamente para não contaminar. A gente sabe que o risco cardiovascular já está bem comprovado, e por isso essas medidas são tomadas. Mas especificamente em relação à voz, imagino que não deva ser bom também. É que a quantidade de exposição é infinitas vezes menor do que aquele indivíduo que se expõe, que é o usuário ativo, vamos dizer. Mas existe sim material particulado, nitrosaminas, substâncias que ficam dispersas, impactadas nos móveis, nos utensílios. Não é só o vapor do uso, ou aerossol, ou a fumaça do cigarro. Você ainda deixa material particulado sobre os utensílios, sobre a cama, sobre o sofá, dentro do carro. Já tem muitos estudos que avaliam, coletam material do estofamento do carro, de carros em que as pessoas fumam ou não fumam, mostrando a contaminação, e a criança às vezes entra em contato, põe na boca, engole, ingere. Existe contaminação do ambiente, com toda certeza. Tanto faz cigarro eletrônico quanto convencional. Por isso que quem usa deve sempre usar em um ambiente aberto, para não contaminar o ambiente domiciliar ou coletivo.
O nosso SPIRA-BM engloba também linhas de pesquisa focadas em asma grave e insuficiência respiratória. No perfil de pacientes que a senhora atende, o uso de novos dispositivos, como o cigarro eletrônico, tem agravado ou desencadeado essas comorbidades?
Jaqueline: Tem. A gente até aponta quando tem. No caso, a asma é uma doença mais de pessoas jovens. Por outro lado, a gente vai ter fumantes, pacientes que são tabagistas de mais longo prazo. Às vezes, temos a turma do eletrônico, que tende a desencadear muito quadro de asma também. O eletrônico tem os componentes diferentes do cigarro convencional. Ele não tem combustão, mas tem mais de 2 mil substâncias. Também que não é nada legal. Nada legal.
E entre essas milhares de substâncias químicas presentes no cigarro eletrônico, imagino que nenhuma traga qualquer benefício, certo?
Jaqueline: Então, a quantidade de nicotina é excepcionalmente alta. E também tem, entre esses componentes, outras substâncias que no cigarro convencional não tem. Porque você usa o propilenoglicol e o glicerol, que, quando aquecidos, para dar o aerossol da nicotina para ele adentrar o pulmão, precisa de um veículo. O veículo é esse: o propilenoglicol e o glicerol. Assim, quando aquecido, forma compostos carbonílicos, que são muito ruins.
Existe um perfil de idade mais associado ao consumo do eletrônico, e como se compara a intensidade desse uso diário com o cigarro convencional?
Jaqueline: Sim, o pessoal é mais jovem. Você pega pessoas que estão usando o produto há um ano, dois anos, três anos, quatro anos, alguns cinco. Mas tem essa diferença. A intensidade do uso é muito maior. Enquanto quem fuma um maço dá 200, 250 tragadas no dia, quem fuma eletrônico dá 1.000, 2.000, 3.000, 4.000 tragadas no dia.
Há pacientes que chegam ao consultório utilizando os dois tipos simultaneamente? Qual é a orientação clínica nesses casos?
Jaqueline: Existe e é perigoso. Até falo: escolhe um até parar de fumar, pois a associação potencializa o risco. Você tem o risco ruim das duas substâncias. Primeiro, do eletrônico, pela alta concentração de nicotina, que você não veria num cigarro convencional. E, do outro lado, você tem a combustão, do monóxido de carbono, o aquecimento com a combustão parcial, com a formação dessas substâncias, que também são ruins. Então você tem o ruim dos dois mundos. Isso agrava muito o risco cardiovascular e doenças pulmonares, e por isso que a gente fala para o paciente: escolhe um. A ideia é que ele pare, obviamente, mas como o nosso tratamento não trabalha com cessação imediata, o indivíduo, às vezes, durante o começo do tratamento, demora três, quatro semanas para parar de fumar, a gente o orienta: escolhe um só, pisa num barco só.
Avaliando o cenário do tabagismo no Brasil, o período da pandemia da COVID-19 provocou um retrocesso no número de fumantes ou no acesso ao tratamento?
Jaqueline: A pandemia piorou. Primeiro, muita gente que estava sem fumar voltou a fumar, porque achou que era o fim do mundo. Então, teve muita recaída. Eu mesma tratei vários pacientes meus que estavam sem fumar, e na pandemia não seguraram a onda, não. Mas tudo bem, o importante é que voltaram, se recolocaram. Até mesmo o acesso ao SUS foi interrompido. Ninguém sabia o que fazer direito, pode-se dizer assim. E uma das coisas mais erradas que teve foi o fechamento dos ambulatórios, serviços de saúde, onde teve o represamento de várias pessoas com doenças graves, que precisavam de intervenção, mas que naquele momento o entendimento equivocado foi que deveria ser suspenso. Inclusive, no SUS, você tem um atendimento gratuito pelo SUS, e os números apontam que teve 2 mil atendimentos. Agora que voltou, que ainda é um número baixo, é 20 mil, só para você ter uma ideia da dimensão do que foi o atendimento do tratamento de tabagismo na época da pandemia. E outro cenário que foi muito ruim na pandemia foi, pela classe média alta, o consumo de cigarro eletrônico. Nesse contexto, a gente viu um aumento do número de usuários por conta dessa falta de fiscalização e o cigarro eletrônico foi um dos que mais adentrou a casa das pessoas.
Apesar do avanço recente do cigarro eletrônico, historicamente o Brasil pode ser considerado uma referência global no combate ao tabagismo?
Jaqueline: Sim. O Brasil é reconhecido internacionalmente pelas políticas públicas de controle do tabagismo e conseguiu reduzir de forma expressiva a prevalência de fumantes nas últimas décadas. Hoje temos um novo desafio, que são os cigarros eletrônicos, mas a manutenção da proibição da comercialização desses produtos certamente ajudou a conter a expansão desse mercado no país. Ainda assim, observamos um aumento recente do consumo de produtos de nicotina. Muitas vezes, a pessoa experimenta o cigarro eletrônico, desenvolve dependência e depois migra para outros produtos. Antes do surgimento dos eletrônicos, as taxas de iniciação ao cigarro convencional entre adolescentes eram bastante baixas. Com a chegada desses dispositivos, houve um estímulo à experimentação de nicotina por parte dos jovens. Algumas pessoas acabam percebendo os problemas associados ao cigarro eletrônico, mas, por já estarem dependentes da nicotina, procuram alternativas. Nesse contexto, houve um crescimento do uso de produtos como o cigarro de palha e o tabaco enrolado à mão, frequentemente vistos de forma equivocada como opções menos nocivas por serem menos industrializados. Existe uma tendência de buscar justificativas para acreditar que determinado produto faz menos mal do que outro. O cigarro eletrônico, por exemplo, foi apresentado por muitos como uma alternativa de menor risco, mas a realidade se mostrou mais complexa. Isso contribuiu para uma migração para diferentes formas de consumo de tabaco e nicotina. Depois de cerca de duas décadas de queda contínua na prevalência de fumantes, observou-se uma interrupção dessa tendência e, em alguns indicadores, aumento do consumo de produtos relacionados à nicotina. Acreditamos que políticas públicas consistentes são fundamentais para enfrentar esse cenário, especialmente diante do surgimento constante de novos produtos pela indústria, como os sachês de nicotina. No fim das contas, trata-se de produtos voltados à manutenção da dependência. E vender dependência é um negócio muito lucrativo.
Diante da cobrança médica que muitas vezes gera vergonha e faz o paciente omitir o hábito de fumar, como as novas metodologias, incluindo a análise da voz em desenvolvimento no SPIRA-BM, podem atuar como aliadas no diagnóstico e contornar esse viés do autorrelato?
Jaqueline: Como eu mencionei, uma ferramenta como essa pode ser especialmente útil em atendimentos por telemedicina, que hoje representam um desafio importante em diversos sistemas de saúde. Muitas vezes, informações sobre o tabagismo dependem exclusivamente do relato do paciente. Imagine alguém que está se preparando para uma cirurgia ou outro procedimento: por receio de julgamento ou por constrangimento, essa pessoa pode omitir que fuma. Na prática clínica, nem sempre existem instrumentos objetivos disponíveis para confirmar essa informação. Equipamentos como os monoxímetros, que medem a concentração de monóxido de carbono no ar expirado, são utilizados em alguns serviços e centros de pesquisa, mas não estão amplamente disponíveis em todas as unidades de saúde. Por isso, frequentemente trabalhamos com o autorrelato do paciente, que pode estar sujeito a vieses. Nesse contexto, metodologias complementares, como a análise da voz, podem se tornar aliadas importantes. Elas podem fornecer informações adicionais que auxiliem na identificação de padrões associados ao tabagismo e contribuam para um diagnóstico mais preciso. Muitas vezes, o paciente omite o hábito de fumar por medo, vergonha ou outras razões. Sabemos que a maioria das pessoas tem consciência dos riscos do tabagismo, mas isso, por si só, não é suficiente para interromper o consumo, porque estamos lidando com uma dependência. Em alguns casos, o profissional de saúde enfatiza a necessidade de parar de fumar, mas nem sempre consegue oferecer todo o suporte terapêutico necessário para essa mudança. Quando a abordagem se limita à cobrança, sem um acompanhamento adequado, o paciente pode acabar evitando o assunto ou omitindo informações. Além disso, alguns profissionais podem priorizar problemas para os quais dispõem de intervenções mais imediatas e objetivas, como hipertensão, diabetes ou colesterol elevado. O tratamento do tabagismo, por sua vez, exige uma abordagem mais ampla. Os medicamentos podem fazer parte do processo, mas geralmente não são suficientes isoladamente. O sucesso da cessação costuma depender da combinação de diferentes estratégias, incluindo acompanhamento profissional, apoio comportamental e, quando indicado, tratamento farmacológico.
Muitas vezes o paciente vê o cigarro como um suporte emocional ou um “acolhimento” para lidar com a ansiedade e a depressão. Como a sua abordagem terapêutica trabalha essa questão psicológica e comportamental?
Jaqueline: Em geral, fumantes com muitos anos de consumo ou que já tentaram parar de fumar sem sucesso apresentam algum grau de dependência da nicotina e podem se beneficiar de tratamento especializado. Também é relativamente comum a presença de transtornos como ansiedade e depressão entre pessoas que fumam, embora essas condições nem sempre estejam diagnosticadas. Em alguns casos, esse pode ser um dos principais obstáculos ao tratamento. O paciente percebe que a nicotina proporciona uma sensação temporária de alívio ou bem-estar emocional e, por isso, tem dificuldade em abandonar o cigarro. Por isso, nossa abordagem leva em consideração esses aspectos psicológicos e comportamentais, buscando identificar e tratar adequadamente possíveis transtornos associados. Muitas vezes, quando essas condições recebem acompanhamento adequado, o paciente passa a se sentir melhor e percebe que existem formas mais eficazes e duradouras de alcançar equilíbrio emocional do que por meio do cigarro. A nicotina produz efeitos de curta duração, o que favorece ciclos repetidos de consumo e sintomas de abstinência ao longo do dia. Essa alternância pode ser percebida pelo fumante como uma oscilação do bem-estar, reforçando a dependência. O tratamento pode incluir medicamentos que ajudam a reduzir os sintomas de abstinência e a fissura, além de outras estratégias terapêuticas. Paralelamente, trabalhamos os aspectos comportamentais envolvidos no hábito de fumar, já que o tabagismo também está associado a rotinas, gatilhos e condicionamentos construídos ao longo do tempo. Utilizamos ainda uma estratégia que denomino “fumar restrito”, que funciona como um importante recurso complementar. A técnica permite que o paciente continue fumando dentro de regras específicas durante uma fase do tratamento, favorecendo a redução gradual do consumo e uma reflexão mais crítica sobre o papel que o cigarro ocupa em sua vida. Com a combinação de acompanhamento profissional, estratégias comportamentais e, quando necessário, medicação ajustada individualmente, muitos pacientes conseguem reduzir significativamente o consumo e aumentar suas chances de cessação do tabagismo.
Como cientista e médica que vivencia a rotina de consultas, de que maneira a senhora enxerga o papel e o impacto da Inteligência Artificial (IA) na medicina atual e no avanço do projeto SPIRA-BM?
Jaqueline: Eu vejo a Inteligência Artificial como uma ferramenta com grande potencial para apoiar tanto a prática clínica quanto a pesquisa. Na minha rotina, por exemplo, sempre houve uma preocupação com a coleta sistemática de dados de qualidade. Inclusive, desenvolvi um software voltado ao acompanhamento do tratamento, que me permite registrar informações dos pacientes e, posteriormente, analisar resultados, como taxas de cessação do tabagismo e possíveis fatores associados ao sucesso terapêutico. Nesse contexto, a IA pode trazer ganhos importantes. Ferramentas de transcrição e processamento de linguagem, por exemplo, podem auxiliar no registro das consultas e na organização estruturada das informações em bancos de dados. Isso pode tornar a coleta de dados mais eficiente e reduzir a carga de trabalho relacionada ao preenchimento manual de registros. Para quem valoriza a interação direta com o paciente, esse tipo de recurso é especialmente interessante. Muitas vezes, durante a consulta, a prioridade é a conversa e a escuta clínica, o que pode dificultar o registro detalhado de todas as informações relevantes. Ferramentas baseadas em IA podem ajudar a preservar esses dados de forma mais completa e organizada, beneficiando tanto o atendimento quanto futuras análises científicas. Além disso, a IA tem potencial para facilitar etapas de processamento e análise de grandes volumes de dados, contribuindo para a geração de conhecimento a partir das informações coletadas na prática clínica. No caso específico do projeto SPIRA-BM, o aspecto mais promissor está na capacidade de identificar padrões em sinais de áudio que não são perceptíveis à avaliação humana convencional. Métodos de Inteligência Artificial e aprendizado de máquina podem analisar características acústicas complexas, como parâmetros espectrais, temporais e de frequência, e investigar sua associação com diferentes condições respiratórias e perfis clínicos. Essa capacidade de extrair informações de grandes conjuntos de dados acústicos abre novas possibilidades para o desenvolvimento de biomarcadores digitais e ferramentas de apoio ao diagnóstico.
Para encerrar, Doutora, mudando um pouco para o âmbito pessoal: como se iniciou a sua carreira como pesquisadora, professora e cardiologista, e o que a motivou a escolher especificamente a investigação científica e o combate ao tabagismo?
Jaqueline: Na verdade, minha atuação na área do tabagismo não surgiu por iniciativa própria. Sou cardiologista de formação e trabalhava no ambulatório de prevenção do InCor após ingressar na instituição como médica assistente por concurso público. Na época, atuava principalmente no atendimento de pacientes com dislipidemias e colesterol elevado. Em 1993, o InCor criou um grupo voltado à promoção da qualidade de vida. Entre os temas contemplados estava o tabagismo, e fui convidada a assumir essa frente. Aceitei a missão com muita convicção, também por razões pessoais. Assim como ocorreu com muitas famílias, a minha foi profundamente impactada pelo cigarro. Meu pai era fumante e faleceu em decorrência de um câncer de pulmão. Minha mãe sofreu um infarto agudo do miocárdio aos 38 anos de idade, em 1978. Naquela época, um evento desse tipo em uma mulher tão jovem não era comum. Ela também fumava e, após o infarto, recebeu uma orientação muito direta da médica que a acompanhava. Eu e minha irmã éramos crianças e estávamos presentes. A médica perguntou quantos filhos ela tinha e, ao ouvir que eram quatro, perguntou se ela queria vê-los crescer. Diante da gravidade da situação, minha mãe parou de fumar imediatamente e nunca mais voltou ao hábito. Meu pai também tentou parar de fumar, inclusive para apoiar minha mãe, mas não conseguiu. Ele tinha uma dependência muito importante da nicotina e acabou falecendo anos depois. Essa experiência me mostrou, desde cedo, o quanto parar de fumar pode ser extremamente difícil, mesmo quando a pessoa conhece os riscos envolvidos. Quando assumi a área de tabagismo no InCor, percebi que não existia um ambulatório específico para o tratamento desses pacientes. Pedi autorização ao professor Sérgio Diogo Giannini para dedicar parte da minha carga assistencial à criação de um ambulatório de cessação do tabagismo. Com sua autorização, passamos a atender fumantes em um período específico da semana, e foi assim que começou minha trajetória nessa área. Desde então, procurei aperfeiçoar continuamente as estratégias de tratamento. Com o surgimento de novos medicamentos e a experiência acumulada ao longo dos anos, fui modificando a abordagem clínica. Em vez de orientar o paciente a eliminar imediatamente todos os gatilhos associados ao cigarro — algo muito difícil para quem convive com o tabagismo em praticamente todos os momentos do dia —, passei a trabalhar com estratégias comportamentais mais graduais e estruturadas. Uma dessas abordagens é a técnica que denomino “fumar restrito”, na qual o paciente mantém temporariamente o consumo de cigarros, mas em condições bastante específicas, reduzindo a associação automática entre o cigarro e as atividades cotidianas. Associada ao tratamento medicamentoso e à identificação de condições frequentemente relacionadas ao tabagismo, como ansiedade e depressão, essa estratégia produziu resultados muito positivos na prática clínica. O tabagismo envolve tanto dependência química quanto aspectos comportamentais e emocionais. Por isso, acredito que o tratamento precisa contemplar todas essas dimensões. Essa abordagem integrada tem contribuído para taxas de sucesso muito expressivas entre os pacientes acompanhados. Por essa razão, nunca considerei necessário adotar o cigarro eletrônico como estratégia terapêutica de cessação. Na minha experiência clínica, é possível obter bons resultados utilizando abordagens baseadas em acompanhamento especializado, tratamento medicamentoso quando indicado e intervenções comportamentais adequadas.
