Quem faz o SPIRA-BM desta vez conversou com o professor Celso Carvalho Fernandes de Carvalho, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e docente nas áreas de Fisioterapia Respiratória e Fisiologia do Exercício. Graduado em Fisioterapia pela UFSCar e em Educação Física, com mestrado e doutorado pelo ICB-USP e livre-docência pela FMUSP, o pesquisador construiu uma trajetória consolidada na área de doenças respiratórias, com forte atuação em ensino, pesquisa e formação de recursos humanos. Vinculado ao Hospital das Clínicas da FMUSP e aos Laboratórios de Investigação Médica (LIM 54), coordena projetos financiados por agências como FAPESP e CNPq, com foco em reabilitação e condições respiratórias crônicas.
No SPIRA-BM, atua principalmente na coordenação da linha de pesquisa em asma grave, articulando a interface entre a prática clínica e o desenvolvimento de novas tecnologias. Na entrevista, ele relata como sua entrada no projeto ocorreu de forma inesperada durante a pandemia de COVID-19, destaca o potencial dos biomarcadores de voz para diferenciar pacientes com asma e, especialmente, para predizer crises, além de discutir desafios no diagnóstico e no manejo da doença, evidenciando o impacto científico e social da iniciativa.
Confira a entrevista completa com Celso, a seguir:
Para começar, professor, conta pra gente como foi a sua motivação inicial para fazer parte do SPIRA-BM.
A minha entrada no SPIRA-BM foi muito acidental. Durante a COVID, nós estávamos atendendo pacientes aqui no hospital, mas paramos o atendimento de pessoas com asma. Esses pacientes praticamente se esconderam durante a pandemia — ficaram em casa e não saíram. Tanto que uma das menores mortalidades entre doenças respiratórias foi justamente da asma, porque eles se protegeram.
Nesse período, eu vi uma reportagem sobre o SPIRA-BM, dizendo que o professor Marcelo Finger estava desenvolvendo um mecanismo de biomarcador de voz para COVID. Entrei em contato com ele por e-mail e disse que tinha certeza de que meus pacientes com asma falavam diferente. Ele respondeu que naquele momento não tinha tempo e pediu para eu escrever novamente depois de seis meses. Fiz isso e, depois de algum tempo, conseguimos avançar na conversa.
Hoje, eu me sinto muito estimulado a fazer parte do SPIRA-BM. Apesar de não dominar todas as ferramentas tecnológicas, eu conheço profundamente os pacientes e acredito que temos muito a contribuir com essa população. O projeto tende a trazer avanços importantes para o tratamento de doenças respiratórias.
Quais são as contribuições o projeto já apresenta especificamente para a pesquisa em asma?
Nós já identificamos que pessoas com asma grave têm biomarcadores de áudio diferentes das pessoas sem asma. Isso já está definido, e estamos iniciando a produção dos trabalhos científicos. Ainda não temos todos os resultados, mas a expectativa é conseguir predizer quando esses pacientes vão piorar, quando terão exacerbações. Se isso se confirmar, será uma contribuição de impacto global.
A asma pode surgir em qualquer idade?
Sim. Existem diferentes fenótipos de asma, ou seja, diferentes formas clínicas da doença. Há casos que começam na infância, geralmente associados a fatores genéticos e alérgicos. Mas também existe a asma que surge na fase adulta, e ainda não se compreende totalmente por que isso acontece. Outro dado importante é que a asma na infância é mais comum em meninos, enquanto na vida adulta é mais frequente em mulheres.
Quem teve asma na infância, mas não apresenta mais crises na fase adulta, precisa se preocupar?
Sim. A pessoa pode ficar sem sintomas, mas a asma continua existindo. O problema é que, ao melhorar, muitos deixam de se cuidar. Hoje sabemos que as pessoas com maior risco de morte por asma são aquelas que têm crises esporádicas e não fazem acompanhamento. Por isso, é fundamental encarar a asma como uma doença crônica, como a hipertensão, e manter o cuidado contínuo.
Quais são os principais cuidados nesses casos?
O principal é o acompanhamento regular e a definição de um plano de ação para crises. Também é importante evitar fatores desencadeantes. No Brasil, os mais comuns são ácaros, presentes em colchões, cortinas e tapetes; umidade e mofo; fezes de barata; poeira; e pelos de animais. Além disso, há a hiperreatividade das vias aéreas, que faz com que cheiros fortes, produtos de limpeza, perfumes e mudanças de temperatura provoquem sintomas, mesmo sem serem alergias. Outro ponto importante é o broncoespasmo induzido por exercício e o tratamento de condições associadas, como a rinite.
Existe um exame específico para diagnosticar asma?
Não existe um único exame. O diagnóstico envolve diferentes elementos, como a espirometria, a avaliação de inflamação — por exemplo, eosinófilos — e, principalmente, os sintomas clínicos A asma é uma doença fortemente baseada na avaliação clínica.
Sobre o SPIRA-BM, além da asma, há linhas de pesquisa em insuficiência respiratória e tabagismo. Como está a atuação do grupo nessas áreas?
Na linha de insuficiência respiratória, ainda não avançamos como gostaríamos por questões institucionais, mas temos interesse. Na linha do antitabagismo, já estamos em articulação com um colega do hospital que atua diretamente com esse tema, e a ideia é integrar esse trabalho ao projeto.
Em relação às amostras, há um equilíbrio entre as linhas de pesquisa?
Na asma, já temos cerca de 500 pacientes. Com o grupo controle, passamos de 600. É um volume muito significativo — provavelmente um dos maiores do mundo nesse tipo de estudo. Atualmente, trabalhamos em três frentes: a repetição de coleta nos mesmos pacientes, para validar o método; o estudo da disfunção de prega vocal; e a predição de crises a partir da voz. São etapas em diferentes níveis de avanço dentro do projeto.
Como foi sua entrada na pesquisa com doenças respiratórias?
Foi uma coincidência. Eu nunca imaginei seguir nessa área. Entrei na prefeitura de São Paulo nos anos 1990 e, naquele período, houve um frio intenso que agravou muitos casos de asma. Comecei a atender esses pacientes, me interessei pelo tema, passei a estudar mais, fiz doutorado na área e segui nesse caminho.
Como é participar de um projeto como o SPIRA-BM?
É algo muito marcante. Trabalhar com pessoas altamente capacitadas, de diferentes áreas, todas focadas na ciência e na melhoria da saúde, sem disputas de ego, é algo raro. Além disso, há a possibilidade de gerar um impacto real na população, trazendo uma nova ferramenta para auxiliar no diagnóstico da asma. Talvez nunca exista um único exame, mas podemos contribuir com mais um marcador importante, baseado na voz.
